José Dirceu, Gleisi Hoffmann, Datena, Tiririca e influenciadores estão entre os nomes conhecidos derrotados; resultados mostram que exposição pública não é sinônimo de voto e reacendem o debate sobre o peso de escândalos e controvérsias na decisão do eleitor
As urnas de 2026 produziram uma coleção de derrotas que atravessa praticamente todos os mundos da fama brasileira.
Há ex-ministros, antigos caciques partidários, apresentadores de televisão, cantores, influenciadores e até personagens que chegaram à política carregados por milhões de seguidores nas redes sociais.
Alguns tentavam voltar. Outros queriam permanecer. Muitos apostavam que reconhecimento público seria suficiente para atravessar a porta do Congresso.
Não foi.
E entre os derrotados há histórias que ajudam a explicar por que uma candidatura conhecida nem sempre se transforma em candidatura competitiva.
O peso do passado entre nomes históricos do PT
Uma das imagens políticas mais fortes desta eleição está na tentativa frustrada de retorno de personagens ligados a antigos escândalos nacionais.
José Dirceu (PT-SP), ex-ministro da Casa Civil e um dos principais articuladores políticos dos primeiros governos Lula, recebeu 78.450 votos para deputado federal e não conseguiu retornar à Câmara.
Dirceu carrega uma biografia inseparável do mensalão e da Lava Jato. Foi condenado e preso no mensalão e também enfrentou processos decorrentes da Lava Jato. É indispensável registrar, porém, que decisões posteriores anularam condenações relacionadas à Lava Jato.
Politicamente, a questão que permanece é outra: uma decisão judicial pode modificar a situação processual de um candidato, mas não necessariamente apaga da memória do eleitor décadas de exposição negativa.
O resultado sugere que a tentativa de transformar a eleição em uma espécie de retorno político encontrou limites. Não é possível afirmar que os escândalos determinaram os 78 mil votos, mas seria igualmente difícil analisar sua candidatura ignorando esse passado.
Situação semelhante atingiu Delúbio Soares (PT-GO).
Ex-tesoureiro do PT e personagem central do mensalão, Delúbio recebeu apenas 14.218 votos na tentativa de chegar à Câmara. Ele foi condenado e preso no mensalão. Também teve condenação relacionada à Lava Jato posteriormente anulada pelo STJ.
Outro nome desse grupo, André Vargas (PT-PR), terminou com 34.619 votos.
Ex-vice-presidente da Câmara, Vargas teve o mandato cassado em 2014 e foi preso durante a Lava Jato. Condenações impostas pela Justiça Federal de Curitiba foram posteriormente anuladas após decisões que reconheceram a incompetência daquele juízo para analisar os casos.
O dado político chama atenção: Dirceu, Delúbio e Vargas voltaram às urnas, mas nenhum conseguiu transformar notoriedade e história partidária em mandato.
Há, entretanto, uma ressalva importante. João Paulo Cunha, também condenado no mensalão, conseguiu voltar à Câmara por São Paulo com 109.548 votos.
Ou seja, o passado judicial não explica sozinho o comportamento eleitoral.
Gleisi: muita projeção, mas sem cadeira no Senado
Outro resultado de grande impacto ocorreu no Paraná.
Gleisi Hoffmann (PT) recebeu 1.542.636 votos, mas terminou em quarto lugar na disputa pelas duas vagas ao Senado.
Ex-presidente nacional do PT, ex-ministra da Casa Civil, deputada federal e uma das principais defensoras do presidente Lula, Gleisi passou os últimos anos no centro dos embates políticos nacionais.
Durante sua trajetória, seu nome apareceu em investigações relacionadas à Lava Jato, mas ela foi absolvida pelo Supremo Tribunal Federal. Esse desfecho precisa ser registrado porque qualquer referência às acusações sem mencionar a absolvição produziria uma leitura incompleta dos fatos.
Em 2026, sua campanha também foi marcada pelo confronto político. No lançamento da pré-candidatura, por exemplo, chamou Sergio Moro de “juiz ladrão”, provocando reação pública do senador.
Mais do que um escândalo específico, sua derrota pode ser lida dentro de um ambiente de forte polarização no Paraná. Gleisi é uma das figuras mais identificadas nacionalmente com o PT e com Lula. Essa identidade mobiliza eleitores, mas também concentra rejeição.
Novamente, não há como estabelecer uma relação matemática entre controvérsia e derrota. O resultado mostra, porém, que enorme projeção nacional e mais de 1,5 milhão de votos não foram suficientes.
Datena e a cadeira que continuou presente
Entre as celebridades, José Luiz Datena (PSB-SP) talvez represente um dos casos mais emblemáticos.
O apresentador recebeu 51.078 votos para deputado federal e não foi eleito.
Dois anos antes, durante a eleição municipal de São Paulo, protagonizou uma das cenas mais repercutidas daquela campanha ao atingir Pablo Marçal com uma cadeira durante um debate.
O episódio continuou acompanhando sua imagem.
Em 2026, integrantes de sua própria campanha chegaram a produzir adesivos fazendo referência à cadeira. Datena afirmou que não havia autorizado o material, determinou que sua distribuição fosse interrompida e declarou não ter orgulho do episódio.
Há ainda uma contradição política difícil de ignorar. Depois da derrota de 2024, o apresentador chegou a dizer publicamente que talvez fosse melhor “deixar a política para os políticos”. Voltou às urnas dois anos depois.
O eleitor conhecia Datena havia décadas.
O problema aparentemente nunca foi falta de exposição.
Foi transformar exposição em voto.
Tiririca: de 1,3 milhão para pouco mais de 5 mil
Talvez nenhum número traduza melhor a volatilidade da fama eleitoral do que o resultado de Tiririca (PSD-CE).
Em 2010, ele estreou na política com cerca de 1,3 milhão de votos em São Paulo.
Vieram mais três eleições vitoriosas.
Em 2026, mudou o domicílio eleitoral para o Ceará e tentou conquistar o quinto mandato.
Recebeu 5.523 votos.
A trajetória eleitoral já mostrava desgaste: 1,3 milhão em 2010, cerca de 1 milhão em 2014, 453 mil em 2018 e 71.754 em 2022.
Agora, a sequência chegou ao fim.
Mais do que uma grande polêmica isolada, o caso de Tiririca parece apontar para o esgotamento de uma fórmula. O personagem que simbolizou o voto de protesto durante anos deixou de produzir o mesmo efeito eleitoral.
Menina da Bota: 1,7 milhão de seguidores, 9.610 votos
Outro número que merece atenção vem de Minas Gerais.
Maria José Mendes da Cruz, a Menina da Bota (União Brasil-MG), recebeu 9.610 votos para deputada federal.
A influenciadora chegou à campanha carregando mais de 1 milhão de seguidores e enorme exposição nas redes.
Durante a disputa, porém, uma declaração chamou atenção. Maria José afirmou que queria entrar na política para mudar a vida da própria família e também melhorar a situação de pessoas que viviam realidade semelhante.
A frase repercutiu justamente porque tocou numa questão sensível: qual deve ser a motivação para ocupar um cargo público?
Não houve escândalo judicial. Houve uma controvérsia de comunicação.
E o resultado mostrou novamente o abismo existente entre seguidores e eleitores.
Milhões podem assistir a um vídeo.
Poucos necessariamente apertarão o número daquele influenciador na urna.
Rachel Sheherazade e a dificuldade de converter notoriedade em voto
Rachel Sheherazade (PSD-SP) recebeu cerca de 22,4 mil votos para deputada federal e ficou fora da Câmara.
A jornalista acumulou ao longo dos anos uma trajetória pública marcada por posições políticas fortes, conflitos, mudanças de posicionamento e grande exposição na televisão e nas redes.
Mas sua votação reforçou um fenômeno observado em diferentes candidaturas nesta eleição: conhecimento de nome não significa necessariamente capilaridade eleitoral.
O mesmo ocorreu com outros personagens conhecidos nacionalmente.
Silvia Abravanel (PSD-SP) teve pouco mais de 22,4 mil votos.
Geraldo Luís (Avante-SP) recebeu 10.176.
Manoel Gomes, o Caneta Azul (Avante-SP), ficou com 7.239.
A celebridade abre a porta da campanha. Não necessariamente conduz o candidato até Brasília.
Jean Wyllys volta, mas fica fora
Outro retorno que chamou atenção foi o de Jean Wyllys (PT-SP).
Ex-deputado federal pelo Rio de Janeiro e vencedor do Big Brother Brasil, Wyllys recebeu 18.073 votos na disputa por São Paulo e não conseguiu retornar à Câmara.
Sua trajetória sempre esteve associada a confrontos políticos intensos, sobretudo em temas relacionados aos direitos LGBTQIA+ e à disputa ideológica com setores conservadores.
Em 2019, após afirmar que vinha sofrendo ameaças de morte, decidiu não assumir o terceiro mandato e deixou o Brasil.
Sua volta eleitoral em outro estado não produziu votação suficiente para recuperar uma cadeira.
A urna separou fama de força política
A lista dos derrotados é extensa.
Datena: 51.078 votos.
José Dirceu: 78.450.
André Vargas: 34.619.
Rachel Sheherazade: cerca de 22,4 mil.
Jean Wyllys: 18.073.
Delúbio Soares: 14.218.
Geraldo Luís: 10.176.
Menina da Bota: 9.610.
Caneta Azul: 7.239.
Tiririca: 5.523.
São trajetórias completamente diferentes. Portanto, seria simplista colocar todas as derrotas na mesma conta.
Para alguns, havia o peso de condenações, prisões e grandes escândalos políticos do passado. Para outros, controvérsias públicas. Para outros ainda, o problema parece ter sido simplesmente a incapacidade de transformar audiência em organização eleitoral.
Há também fatores objetivos que nenhuma análise séria pode ignorar: força do partido, quociente eleitoral, nominata, distribuição geográfica dos votos, recursos de campanha, alianças e concorrência dentro da própria legenda.
Mas existe um fio comum.
A urna de 2026 mostrou que ser conhecido é apenas o começo.
O eleitor pode reconhecer o rosto, lembrar do escândalo, acompanhar o perfil, rir do vídeo, assistir ao programa e até saber o bordão.
Ainda assim, pode escolher outro número.
E talvez esse tenha sido um dos recados mais interessantes deixados pelas urnas: popularidade produz atenção. Mandato exige voto.
