Em sua primeira eleição, ex-secretária de Cidadania alcança a décima maior votação individual para deputada federal, mas fica fora da Câmara pelo cálculo proporcional. Resultado transforma sua estreia em um novo capítulo político e abre possibilidades que vão além da disputa de 2026.
Há derrotas eleitorais que encerram projetos. Outras inauguram uma discussão sobre o que poderá vir depois. A votação de Viviane Luiza (PSDB), neste domingo (4), pertence, pelo menos, ao segundo tipo de resultado.
Em sua primeira disputa por um cargo eletivo, a historiadora, antropóloga e ex-secretária de Estado da Cidadania recebeu 45.083 votos, correspondentes a 3,17% dos votos válidos para deputado federal em Mato Grosso do Sul.
O número a colocou na décima posição nominal entre os candidatos ao cargo, atrás apenas dos oito eleitos e de Jaime Verruck (Republicanos), que recebeu 49.585 votos.
Viviane não conquistou uma das oito vagas destinadas ao Estado na Câmara dos Deputados. O desempenho coletivo da Federação PSDB/Cidadania não foi suficiente para assegurar uma cadeira pelo sistema proporcional.
Ainda assim, a votação individual fornece um dado político importante: em sua primeira experiência nas urnas, a ex-secretária conseguiu reunir o apoio de mais de 45 mil eleitores.
Para alguém que até recentemente ocupava um cargo técnico e administrativo, o resultado estabelece uma nova referência pública para sua trajetória.
Os números que colocaram Viviane entre os dez mais votados
A dimensão da votação aparece com maior clareza quando comparada à classificação nominal divulgada pelo Tribunal Superior Eleitoral.
| Posição nominal | Candidato | Partido | Votos |
|---|---|---|---|
| 1 | Camila Jara | PT | 154.157 |
| 2 | Marcos Pollon | PL | 140.129 |
| 3 | Rose Modesto | União Brasil | 124.409 |
| 4 | Mara Caseiro | PL | 120.199 |
| 5 | Rodolfo Nogueira | PL | 103.303 |
| 6 | Beto Pereira | Republicanos | 77.485 |
| 7 | Isa Marcondes | Republicanos | 76.956 |
| 8 | Dagoberto Nogueira | PP | 56.217 |
| 9 | Jaime Verruck | Republicanos | 49.585 |
| 10 | Viviane Luiza | PSDB | 45.083 |
Classificação por votação nominal. A posição individual não equivale necessariamente à ordem de distribuição das cadeiras no sistema proporcional.
Viviane recebeu 4.502 votos a menos que Jaime Verruck e 11.134 a menos que Dagoberto Nogueira, último nome da relação dos eleitos.
A diferença nominal, entretanto, não deve ser confundida com a quantidade de votos que faltou para conquistar uma vaga. A eleição proporcional considera o resultado coletivo dos partidos e federações, não apenas o desempenho isolado das candidaturas.
Essa particularidade explica por que o décimo lugar individual não se transformou em mandato.
Também estabelece uma distinção essencial para avaliar o resultado: Viviane não foi eleita, mas o volume de votos recebidos passa a integrar seu histórico político e poderá ser considerado em futuras negociações partidárias.
De uma trajetória técnica à primeira votação popular
O resultado de domingo também exige olhar para a história da candidata.
Criada na periferia de Campo Grande, Viviane Luiza começou a trabalhar aos 14 anos para ajudar nas despesas familiares. Sua trajetória passou pela educação pública, pela formação em História, pela pesquisa acadêmica e por mais de duas décadas de atuação relacionada aos povos originários.
Com mestrado em Desenvolvimento Local e experiência internacional, desenvolveu atividades ligadas à antropologia, à cultura e às políticas públicas.
Em 2023, passou a integrar a gestão de Eduardo Riedel como secretária-adjunta de Turismo, Esporte, Cultura e Cidadania. Posteriormente, assumiu a Secretaria de Estado da Cidadania, estruturada como pasta independente em 2024.
À frente da secretaria, trabalhou com políticas voltadas a mulheres, juventude, povos indígenas, igualdade racial, pessoas com deficiência, população LGBTQIA+, idosos e comunidades tradicionais.
Entre as iniciativas desenvolvidas durante sua gestão estão o programa Protege, voltado à prevenção e ao enfrentamento da violência contra mulheres, e ações relacionadas à inclusão, participação social e cidadania.
A experiência administrativa lhe proporcionou contato institucional com os 79 municípios de Mato Grosso do Sul.
Mas existe uma diferença entre percorrer o Estado na condição de secretária e disputar votos.
A eleição de 2026 foi justamente a primeira oportunidade de medir, nas urnas, o alcance individual de seu nome.
E a resposta foi de 45.083 votos.
O significado político de uma estreia expressiva
Uma candidatura de primeira viagem não chega necessariamente às urnas sem estrutura. Viviane participou da disputa com respaldo de sua legenda e teve o lançamento da campanha acompanhado pelo governador Eduardo Riedel, pelo ex-governador Reinaldo Azambuja, pela primeira-dama Mônica Riedel e pela ex-senadora Marisa Serrano.
Sua prestação de contas também registrava R$ 875 mil em receitas de campanha até a atualização de 19 de setembro, provenientes das direções nacional e estadual do PSDB.
Portanto, os 45 mil votos precisam ser examinados considerando tanto a trajetória individual quanto o investimento partidário e o apoio político recebido.
O que a eleição acrescenta é um dado que nenhuma nomeação administrativa consegue produzir: uma votação nominal aferida diretamente nas urnas.
A partir de agora, Viviane deixa de apresentar apenas o currículo de uma ex-gestora pública. Passa a ter também um resultado eleitoral próprio para integrar as discussões sobre seu futuro.
É uma mudança importante de condição política.
O capital administrativo, construído pelo exercício de funções públicas, passa a conviver com um capital eleitoral individual.
O PSDB perde espaço, mas a votação de Viviane oferece outro dado à legenda
A expressiva votação da candidata ocorre em um momento particularmente delicado para o PSDB em Mato Grosso do Sul.
O partido passou por uma reorganização que incluiu a saída de Reinaldo Azambuja para o PL e a migração de Eduardo Riedel para o Progressistas.
Na Assembleia Legislativa, a Federação PSDB/Cidadania conquistou três vagas em 2026, contra sete na eleição de 2022.
Na Câmara Federal, não conseguiu eleger representantes por Mato Grosso do Sul.
Esse contexto torna o desempenho de Viviane um elemento relevante para as avaliações internas do partido.
O número de votos demonstra que sua candidatura conseguiu estabelecer uma base individual em um cenário no qual a legenda, apesar de possuir estruturas e lideranças regionais, não alcançou representação federal.
Isso não significa que Viviane tenha assumido automaticamente a liderança do PSDB ou que exista qualquer decisão sobre seu futuro partidário.
Significa, porém, que seu resultado fornece um indicador concreto para futuras conversas sobre renovação, organização territorial e composição de novas chapas.
O que 45 mil votos podem representar para os próximos projetos?
A política não oferece continuidade automática a uma boa estreia eleitoral.
Quarenta e cinco mil votos recebidos em 2026 não constituem uma reserva para 2028 ou 2030. O eleitorado muda, as alianças se reorganizam, novas candidaturas surgem e os cargos em disputa possuem características diferentes.
Ainda assim, a votação de Viviane permite examinar algumas possibilidades institucionais.
Participação no debate sobre a renovação partidária
Com o PSDB em processo de reorganização em Mato Grosso do Sul, a votação da ex-secretária poderá ser considerada nas discussões sobre a composição de futuras nominatas e o papel de novos quadros dentro da legenda.
Uma eventual disputa municipal em 2028
O resultado estadual também poderá integrar avaliações sobre projetos eleitorais municipais, inclusive em Campo Grande, onde Viviane construiu parte importante de sua trajetória pessoal e profissional.
Essa hipótese, entretanto, depende de uma decisão da própria Viviane, da composição partidária e de levantamentos específicos sobre a distribuição geográfica de seus votos. Não há candidatura futura definida.
A continuidade em projetos de gestão pública
Sua experiência na Secretaria da Cidadania permanece como uma possibilidade de atuação institucional, independentemente da conquista de mandato parlamentar.
Políticas para mulheres, inclusão, povos originários, desenvolvimento social e gestão baseada em indicadores são áreas nas quais já possui atuação documentada.
A construção de uma nova candidatura federal
A eleição de 2026 também poderá servir como referência para uma eventual disputa legislativa em 2030.
Nesse cenário, seriam necessárias novas avaliações sobre composição partidária, desempenho coletivo das chapas e capacidade de manutenção das relações políticas estabelecidas durante a primeira campanha.
Nenhum desses caminhos está assegurado pelo resultado de domingo. Todos dependerão das decisões e articulações que ocorrerem daqui para frente.
A força dos votos e o desafio de transformá-los em continuidade
Existe um aspecto que merece atenção especial na trajetória de Viviane Luiza: sua primeira campanha não foi construída sobre um mandato parlamentar anterior.
Diferentemente de candidatos que chegam à eleição com uma base consolidada por anos de atuação legislativa, ela apresentou ao eleitorado uma experiência essencialmente acadêmica e administrativa.
O resultado permite afirmar que essa trajetória encontrou reconhecimento eleitoral entre mais de 45 mil sul-mato-grossenses.
Não permite, por outro lado, concluir que esses eleitores constituam um grupo homogêneo, que compartilhem necessariamente as mesmas prioridades ou que transfeririam seus votos para uma disputa de natureza diferente.
O desafio político que surge agora consiste em compreender essa votação.
Onde ela se concentrou? Qual foi a participação de Campo Grande? Como se distribuíram os votos entre os municípios do interior? Em quais regiões a candidatura obteve maior presença?
Essas respostas, disponíveis a partir da análise territorial dos dados oficiais do TSE, serão importantes para qualquer avaliação séria sobre seus próximos passos.
Também será necessário observar se Viviane pretende continuar participando das atividades partidárias, mantendo interlocução com os municípios e desenvolvendo projetos relacionados às áreas em que construiu sua carreira.
O período posterior à eleição será decisivo para compreender se a votação representa um episódio isolado ou o início de uma atuação eleitoral de longo prazo.
Um resultado que muda a dimensão pública de seu nome
O desempenho de Viviane Luiza não lhe garantiu um mandato na Câmara dos Deputados, mas alterou objetivamente sua posição no cenário eleitoral de Mato Grosso do Sul.
A mulher que começou a trabalhar aos 14 anos, construiu carreira acadêmica, desenvolveu pesquisas com povos originários, viveu no exterior e retornou ao Estado para assumir responsabilidades na gestão pública chegou à primeira eleição com um currículo técnico.
Sai dela com 45.083 votos.
Na política, não há fórmula que transforme automaticamente uma votação em influência futura. Esse processo exige continuidade, participação pública, estrutura partidária e capacidade de articulação.
O que as urnas de 2026 entregaram a Viviane foi um ponto de partida mensurável.
A primeira eleição não lhe deu uma cadeira em Brasília. Deu-lhe, porém, uma nova dimensão eleitoral, cujo significado político começará a ser definido justamente agora, quando termina a campanha e começa a discussão sobre o que fazer com os 45 mil votos recebidos.
