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Em tempos de campanhas cada vez mais agressivas, um telefonema conseguiu fazer o que discursos, notas oficiais e entrevistas raramente conseguem: transformar um embate político em uma conversa sobre afeto, identidade e pertencimento.

Após as declarações do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, afirmando que Simone Tebet e Marina Silva teriam recebido “cartão vermelho” em seus estados de origem e não seriam eleitas em São Paulo, a senadora escolheu um caminho pouco convencional para responder.

Em vez de convocar uma coletiva ou publicar uma nota de repúdio, ela pegou o telefone e ligou para a própria mãe.

A conversa, gravada e publicada nas redes sociais da senadora, rapidamente ganhou repercussão justamente por fugir do roteiro tradicional da política. Não havia cenário institucional, assessores ao redor ou discurso preparado. Havia apenas uma filha ouvindo a opinião da mãe sobre uma crítica que ultrapassou a esfera eleitoral.

Quando a política encontra a família

A estratégia adotada por Simone Tebet desloca o foco da discussão.

Até então, o debate girava em torno de domicílio eleitoral, origem geográfica e viabilidade política. Com o vídeo, a narrativa passa a tratar de algo muito mais difícil de confrontar: a relação entre mãe e filha.

A gravação transmite espontaneidade, ainda que tenha sido publicada como conteúdo político. O resultado é um material capaz de despertar identificação em diferentes públicos, inclusive entre pessoas pouco interessadas no embate partidário.

Ao colocar a mãe no centro da resposta, Simone retira o adversário do papel principal da história.

O ataque deixa de ser o protagonista. O vínculo familiar passa a ocupar esse espaço.

A resposta que não precisava elevar o tom

Durante o episódio, Simone também rebate a declaração de Tarcísio com ironia.

Afirma ser corintiana, enquanto o governador é flamenguista, e lembra que vive em São Paulo há anos, onde paga seus impostos. A observação faz referência às críticas sobre sua legitimidade para disputar eleições no estado e, ao mesmo tempo, provoca o próprio histórico político de Tarcísio, que construiu sua carreira em São Paulo apesar de não ser paulista de nascimento.

Mas o aspecto mais marcante da resposta não está na ironia.

Está na decisão de responder com humanidade.

Enquanto a crítica buscava reduzir uma trajetória política a uma frase de efeito, Simone procurou ampliar a discussão para algo que nenhuma eleição consegue apagar: suas origens e sua história familiar.

O peso das raízes

Filha do ex-presidente do Senado Ramez Tebet, Simone construiu praticamente toda sua trajetória política em Mato Grosso do Sul.

Foi prefeita, deputada estadual, vice-governadora, senadora e candidata à Presidência da República.

Sua mudança de domicílio eleitoral para São Paulo faz parte de um novo projeto político nacional, mas não elimina sua ligação histórica com o estado onde nasceu politicamente.

É justamente essa memória que o vídeo procura resgatar.

Ao conversar com a mãe, Simone não fala apenas como senadora.

Fala como filha de uma família que continua sendo identificada com Mato Grosso do Sul.

Comunicação que aposta na emoção

Especialistas em marketing político costumam afirmar que fatos convencem, mas emoções mobilizam.

O vídeo publicado por Simone Tebet segue exatamente essa lógica.

Em vez de ampliar o conflito com respostas duras, aposta em um recurso simples: mostrar uma reação familiar diante de uma crítica pública.

A estratégia também dificulta novos ataques.

Criticar um adversário político é esperado em campanhas.

Criticar uma conversa entre mãe e filha produz um efeito completamente diferente perante a opinião pública.

Mais do que uma resposta

O episódio mostra como a comunicação política mudou.

As redes sociais deixaram de ser apenas espaços para divulgação de agendas e passaram a funcionar como palco para construção de narrativas pessoais.

Nesse ambiente, um telefonema pode produzir mais repercussão do que um pronunciamento oficial.

Se surtirá efeito eleitoral, somente as próximas pesquisas poderão indicar.

Mas uma conclusão já parece evidente.

Ao transformar um ataque político em uma conversa de família, Simone Tebet conseguiu deslocar o debate do campo da disputa para o terreno da emoção, onde argumentos costumam dividir espaço com algo muito mais poderoso: a identificação humana.

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