Maior edital cultural da história da estatal será bancado via Lei Rouanet e Lei do Audiovisual, enquanto os números recentes da companhia expõem queda brutal de lucro e prejuízo bilionário no 4º trimestre de 2024
A Petrobras quer falar de cultura.
Mas os números obrigam a falar de prioridade.
A estatal anunciou a Seleção Petrobras Cultural 2026 com investimento de R$ 270 milhões para projetos em todo o Brasil. É a maior edição já realizada pela companhia. Os projetos serão viabilizados por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura, a Lei Rouanet, e da Lei do Audiovisual.
No papel, parece bonito.
Na planilha, a conversa muda.
A mesma Petrobras que agora apresenta R$ 270 milhões para cultura registrou resultado líquido negativo de R$ 17 bilhões no quarto trimestre de 2024. O valor do tombo trimestral é cerca de 63 vezes maior que o edital cultural lançado para 2026.
É esse contraste que incomoda.
Não é uma discussão contra a cultura. É uma discussão sobre o uso da cultura como vitrine por uma estatal que atravessou anos de instabilidade, queda pesada de lucro, disputa política sobre dividendos e cobrança permanente por eficiência.
Porque quando uma empresa controlada pela União coloca R$ 270 milhões em patrocínio cultural incentivado, ela não está apenas apoiando artistas, festivais, filmes ou espaços culturais.
Ela está comprando imagem pública.
E imagem pública, numa estatal desse tamanho, também é poder.
O edital milionário
A Seleção Petrobras Cultural 2026 prevê R$ 270 milhões para projetos culturais de todo o país.
A empresa informa que os recursos serão destinados a iniciativas enquadradas na Lei Rouanet e na Lei do Audiovisual. Ou seja: parte da operação passa por mecanismos de incentivo fiscal.
Esse detalhe muda o debate.
Não se trata apenas de uma empresa privada usando livremente o próprio lucro para patrocinar cultura. Trata-se de uma estatal de economia mista, controlada pelo governo federal, operando uma política robusta de patrocínio com recursos incentivados.
A diferença é essencial.
Dinheiro incentivado não nasce no vazio. Ele está ligado à renúncia fiscal. É recurso que poderia seguir outro caminho dentro da lógica tributária do país, mas passa a ser direcionado para projetos selecionados por regras específicas.
Por isso, o edital precisa ser olhado com lupa.
Quem será contemplado?
Quanto irá para grandes produtoras?
Quanto chegará à cultura de base?
Quanto ficará concentrado em estruturas já profissionalizadas?
Quantos projetos serão aprovados fora dos centros de maior articulação política e técnica?
E, principalmente: qual é o retorno público real, além do retorno de imagem para a Petrobras?

O rombo que não cabe no cartaz
A Petrobras encerrou 2024 com lucro líquido de R$ 36,6 bilhões. O número ainda é bilionário, mas representa um tombo brutal em relação a 2023, quando a empresa havia registrado R$ 124,6 bilhões de lucro.
A queda foi de R$ 88 bilhões em um ano.
Esse valor é aproximadamente 326 vezes maior que o edital cultural de R$ 270 milhões.
Mas o dado mais agressivo está no quarto trimestre de 2024: resultado líquido negativo de R$ 17 bilhões.
Prejuízo trimestral.
No vermelho.
E não foi um tropeço pequeno.
A própria empresa afirma que, sem eventos exclusivos, o lucro líquido do quarto trimestre teria sido de R$ 17,7 bilhões. Ainda assim, o balanço oficial registrou resultado negativo de R$ 17 bilhões.
É aí que a narrativa cultural perde inocência.
Uma estatal pode apoiar cultura mesmo depois de um ano difícil? Pode.
Mas precisa explicar melhor.
Precisa mostrar critério.
Precisa provar impacto.
Precisa demonstrar que não está usando patrocínio incentivado como cortina de fumaça reputacional.
Porque, quando o público vê R$ 17 bilhões no vermelho em um trimestre e, depois, R$ 270 milhões em edital cultural anunciado com pompa, a pergunta é inevitável:
a prioridade é política pública ou blindagem de imagem?
A maquiagem da generosidade
A Petrobras não é uma empresa qualquer.
É uma gigante estratégica, controlada pela União, com influência direta sobre economia, combustíveis, investimentos, arrecadação, dividendos e debate nacional.
Quando essa empresa anuncia um edital cultural bilionário em escala simbólica, o gesto não é neutro.
A cultura vira instrumento de presença institucional.
Vira narrativa.
Vira aproximação com setores organizados.
Vira ativo de reputação.
E isso precisa ser dito sem medo.
O país não pode tratar patrocínio estatal como se fosse caridade empresarial. Ainda mais quando o dinheiro passa por incentivo fiscal e quando a estatal tem uma longa história de uso político da própria imagem.
Cultura merece investimento.
Mas cultura não pode virar biombo.
Não pode ser usada para pintar de sensibilidade social uma estrutura que precisa responder por eficiência, governança, lucro, dívida, investimento produtivo e retorno ao contribuinte.
Quem entra nesse jogo?
Outro ponto do edital também merece crítica.
A Petrobras informa que a seleção é voltada a pessoas jurídicas com CNPJ válido e atuação cultural. Pessoa física, MEI e empresário individual ficam fora.
Na prática, isso cria uma barreira.
O discurso fala em diversidade, território, circulação e fortalecimento da cultura brasileira. Mas a porta de entrada exige estrutura formal, capacidade técnica, documentação, enquadramento legal, prestação de contas e familiaridade com os mecanismos de incentivo.
Isso favorece quem já sabe jogar o jogo.
Grandes produtoras, instituições organizadas, grupos com assessoria especializada e agentes culturais com estrutura administrativa saem na frente.
Enquanto isso, o artista pequeno, o coletivo periférico e a cultura de base muitas vezes entram apenas como peça terceirizada dentro de projetos maiores.
É a velha contradição dos grandes editais culturais: vendem democratização, mas frequentemente premiam quem já tem máquina.
O problema não é a cultura
É preciso repetir para evitar a caricatura.
A crítica não é contra artista.
Não é contra cinema.
Não é contra cultura popular.
Não é contra festival, museu, memória, patrimônio ou circulação cultural.
A crítica é contra a falta de pudor institucional em anunciar R$ 270 milhões como se o país não tivesse o direito de perguntar de onde vem, para quem vai, quem decide, quem ganha capital político e qual impacto concreto será entregue.
Ainda mais depois de uma queda de R$ 88 bilhões no lucro anual entre 2023 e 2024 e de um trimestre com R$ 17 bilhões no vermelho.
O Brasil precisa de cultura.
Mas também precisa de responsabilidade.
Precisa de transparência.
Precisa de empresa estatal que não confunda patrocínio incentivado com autopromoção.

A conta é pública
A Petrobras vai dizer que cumpre a lei.
E pode estar cumprindo.
Vai dizer que apoia a cultura brasileira.
E pode apoiar.
Vai dizer que o edital tem critérios.
E deve ter.
Mas nada disso elimina a pergunta central: uma estatal que acaba de atravessar um resultado trimestral negativo de R$ 17 bilhões pode transformar R$ 270 milhões em vitrine cultural sem enfrentar cobrança pública?
Não pode.
Porque o dinheiro pode até estar dentro da legalidade.
Mas legalidade não encerra debate sobre prioridade.
O edital cultural da Petrobras não é apenas uma seleção de projetos. É uma peça de poder simbólico.
E, no Brasil de 2026, poder simbólico também se disputa com dinheiro público, renúncia fiscal e narrativa.
No fim, a conta é simples.
R$ 270 milhões fazem um edital gigante.
R$ 17 bilhões fazem um rombo impossível de esconder.
E entre um número e outro está a pergunta que a Petrobras não deveria conseguir driblar:
quem está pagando pela vitrine?
