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Riedel entra como favorito, Reinaldo aparece consolidado e a centro-direita domina o tabuleiro, mas indefinição no segundo voto, disputa no PL e eleitor pragmático impedem eleição de resultado cantado

A eleição de 2026 em Mato Grosso do Sul começa com uma aparência de estabilidade, mas carrega uma disputa subterrânea que pode reorganizar o poder no Estado.

Na superfície, o cenário parece simples: Eduardo Riedel chega forte para disputar a reeleição, Reinaldo Azambuja aparece como nome consolidado ao Senado, a centro-direita controla a maior parte das alianças e a oposição ainda procura uma forma de furar a barreira do antipetismo em um Estado conservador.

Mas eleição não é fotografia. É filme.

E, no filme sul-mato-grossense, a disputa mais importante talvez não seja apenas pelo Governo do Estado. Pode estar na segunda vaga ao Senado, no racha interno do PL, na capacidade de Nelsinho Trad sobreviver ao avanço bolsonarista, no esforço de Fábio Trad para desideologizar a esquerda e no comportamento de um eleitorado que, mesmo conservador, nem sempre vota apenas por guerra cultural.

Mato Grosso do Sul chega ao ciclo eleitoral como um laboratório político da centro-direita brasileira. O Estado reúne bolsonarismo forte, agronegócio influente, prefeitos pragmáticos, eleitorado de perfil conservador e uma cultura política municipalista. Aqui, ideologia pesa. Mas entrega também pesa. E muito.

Grupo de políticos em um ambiente interno, com foco em diferentes expressões e estilos de roupas formais.

Bancada Federal de MS.

Esse é o ponto central da eleição.

Riedel não depende apenas de discurso. O governador entra no jogo com uma imagem associada à gestão técnica, previsibilidade e articulação com os municípios. Sua principal força é ocupar o lugar do gestor que não grita, não rompe pontes e tenta vender continuidade como segurança.

Em um Estado que costuma premiar organização, esse ativo é poderoso.

A base governista também tem musculatura. PP, União Brasil, PL, Republicanos, PSDB e outros partidos orbitam o projeto de continuidade. A federação entre PP e União Brasil amplia a estrutura da aliança e coloca o grupo em posição de vantagem na montagem de chapas, no acesso a recursos, no tempo político e na capilaridade municipal.

Na prática, Riedel governa com uma superbase.

Mas superbase também produz problema.

Quando muitos grupos se sentem donos da vitória, todos querem espaço. Quando uma eleição parece favorável, ninguém quer ficar de fora da fotografia. E quando há duas vagas ao Senado, a disputa deixa de ser apenas contra adversários. Passa a ser também entre aliados.

É aí que o tabuleiro começa a ficar mais interessante.

Reinaldo Azambuja aparece como o nome mais bem posicionado para uma das vagas ao Senado. Ex-governador, articulador experiente e hoje peça central do PL em Mato Grosso do Sul, ele carrega recall, estrutura, presença no interior e baixa rejeição em comparação com outros nomes do campo majoritário.

A candidatura de Reinaldo tem uma função maior do que sua eleição pessoal. Ela simboliza a conversão de uma parte do antigo poder tucano em uma nova engrenagem da direita. O ex-governador, que por anos operou no PSDB, agora atua dentro do PL, partido que deixou de ser apenas abrigo do bolsonarismo raiz para se tornar também uma máquina de acomodação de lideranças tradicionais.

Esse movimento é decisivo para entender 2026.

O PL cresceu, mas cresceu misturando perfis diferentes. De um lado, a direita ideológica, ligada ao bolsonarismo mais puro, representada por nomes como Marcos Pollon e Capitão Contar. De outro, o grupo pragmático que chegou com Reinaldo, com deputados, prefeitos, lideranças municipais e operadores de território.

A pergunta é simples: esse PL cabe inteiro em uma mesma chapa?

A resposta ainda não está clara.

A segunda vaga ao Senado virou o ponto mais instável da eleição. Capitão Contar e Marcos Pollon disputam o espaço de representação bolsonarista. Contar tem recall de campanha majoritária e conversa com parte do eleitor conservador que o acompanhou na disputa passada pelo governo. Pollon tem conexão mais orgânica com a direita ideológica e busca se apresentar como nome preferencial do bolsonarismo nacional.

Os dois querem o mesmo eleitor, o mesmo selo e a mesma vaga.

Esse é o risco.

Se o PL escolher um e conseguir pacificar o outro, o partido sai forte. Se escolher um e deixar o outro ressentido, abre uma fissura. Se tentar empurrar a definição para muito tarde, pode perder tempo, narrativa e organização. Se Bolsonaro ou Flávio Bolsonaro entrarem de forma decisiva, podem resolver a disputa. Mas também podem acirrar feridas.

Em Mato Grosso do Sul, o bolsonarismo é forte, mas não é homogêneo. Existe o eleitor ideológico, que acompanha carta, vídeo, posicionamento nacional e fidelidade absoluta. Existe o eleitor conservador pragmático, que vota na direita, mas também quer obra, estrada, saúde, segurança e presença do Estado. E existe o eleitor indiferente à guerra política, que pode até rejeitar a esquerda, mas não decide voto por militância.

É esse eleitor que Riedel tenta capturar.

O relatório aponta um dado importante: uma parcela expressiva do eleitorado se mostra indiferente do ponto de vista ideológico. Esse eleitor não necessariamente se define pela briga Lula contra Bolsonaro. Ele pode preferir eficiência, estabilidade, entrega municipal e ausência de sobressalto.

É o eleitor que não quer necessariamente participar da guerra. Quer que a cidade funcione.

Esse grupo ajuda a explicar o favoritismo de Riedel. Também ajuda a explicar por que a oposição tenta mudar o tom.

Fábio Trad, no PT, não tem caminho fácil. Mato Grosso do Sul é terreno duro para uma candidatura petista ao governo. A rejeição ao governo federal pesa. A força da direita pesa. A saída de Simone Tebet do tabuleiro local enfraquece a capacidade de aglutinar o centro. E a máquina governista já ocupa boa parte do espaço institucional.

Por isso, a estratégia mais provável de Fábio é tentar desideologizar a disputa.

Falar menos de PT e mais de saúde. Menos de Brasília e mais de Mato Grosso do Sul. Menos de Lula e mais de infraestrutura, segurança, cidades e serviços públicos. A ideia é reduzir a rejeição automática e tentar conversar com o eleitor moderado, cansado de polarização ou insatisfeito com problemas concretos.

É uma estratégia possível, mas limitada.

Se Fábio se afastar demais da identidade petista, pode perder força na própria base. Se se aproximar demais de Lula, pode reforçar o antipetismo. Se a campanha depender apenas de erro do governo, ficará refém do adversário. Se conseguir transformar saúde, custo de vida, educação, segurança e desigualdade regional em pauta central, pode criar algum desconforto para Riedel.

Mas hoje, a oposição não parece disputar a eleição em posição de igualdade. Parece disputar para tentar criar dúvida.

E criar dúvida, em uma eleição aparentemente controlada pelo governismo, já seria um avanço.

O Senado, por outro lado, é outra história.

A primeira vaga pode caminhar para Reinaldo, mas a segunda segue aberta. Nelsinho Trad entra nesse espaço como um nome de centro, com mandato, base municipal, trânsito institucional e apoio de prefeitos. Sua força está menos no barulho ideológico e mais na capilaridade. Nelsinho não precisa vencer a guerra cultural para ser competitivo. Precisa convencer o eleitor de que é o voto seguro, útil e equilibrado para a segunda cadeira.

Esse é seu ativo.

Mas também há fragilidade. Em uma eleição de direita muito nacionalizada, o centro pode ser espremido. Se o eleitor bolsonarista receber comando claro para votar em dois nomes do campo conservador, Nelsinho terá de buscar voto fora desse núcleo, especialmente em Campo Grande, nos prefeitos, no eleitor moderado e nos que rejeitam radicalismos.

Soraya Thronicke enfrenta outro tipo de desafio. Tem mandato, visibilidade nacional e atuação em pautas de impacto, mas aparece com rejeição relevante no cenário. Para crescer, precisaria reconstruir ponte com eleitorado, encontrar palanque competitivo e se diferenciar em uma disputa onde a direita tem nomes mais orgânicos e o centro tem Nelsinho.

Vander Loubet, por sua vez, representa a base histórica da esquerda. Tem estrutura partidária, experiência e eleitorado fiel, mas esbarra no teto do campo progressista em Mato Grosso do Sul. Para disputar uma vaga real ao Senado, precisaria não apenas manter a esquerda mobilizada, mas também herdar voto de centro ou se beneficiar de uma divisão severa na direita.

Esse é o ponto-chave: a oposição só cresce se a direita errar.

E o erro mais provável da direita está dentro dela mesma.

A disputa pelo Senado pode produzir uma eleição de múltiplas camadas. Reinaldo tentando consolidar o voto da experiência. Contar e Pollon disputando quem é o verdadeiro herdeiro do bolsonarismo. Nelsinho buscando o eleitor moderado. Soraya tentando preservar espaço. Vander tentando furar o bloqueio conservador. Tudo isso ao mesmo tempo, enquanto Riedel tenta evitar que a briga contamine seu projeto de reeleição.

O governador precisa da direita, mas não pode ser engolido por ela.

Essa será uma das tarefas mais delicadas da campanha. Riedel terá de manter a aliança com o PL, preservar o apoio de Reinaldo, dialogar com Tereza Cristina, acomodar partidos da base, respeitar prefeitos, administrar disputas proporcionais e, ao mesmo tempo, não permitir que o conflito entre bolsonaristas transforme sua campanha em refém de briga interna.

A eleição para governador pede serenidade. A eleição para o Senado promete turbulência.

Essa diferença pode definir o ritmo da campanha.

Nas proporcionais, o cenário também deve ser duro. O PSDB tenta sobreviver como força legislativa depois de perder protagonismo na disputa federal e no comando do Estado. O MDB busca recuperar espaço na Assembleia. O PL quer transformar crescimento em cadeiras. PP e União Brasil devem usar a estrutura governista para fortalecer suas chapas. E partidos menores tentam encontrar brechas em um ambiente cada vez mais caro, competitivo e controlado por grandes blocos.

A retotalização de votos que tirou Neno Razuk e colocou João César Mattogrosso na Assembleia serve como alerta. Em 2026, as chapas proporcionais terão de ser montadas com mais cuidado. Fraude, fragilidade jurídica, nominatas mal planejadas e candidaturas sem lastro podem custar mandatos. O jogo proporcional será menos visível para o eleitor comum, mas extremamente decisivo para o poder real depois da eleição.

Afinal, quem governa precisa de Assembleia. Quem quer sobreviver politicamente precisa de bancada. Quem quer comandar partido precisa eleger gente.

Outro fator que pode pesar é a presença nacional. Flávio Bolsonaro aparece forte no Estado e pode influenciar diretamente a disputa dentro do PL. Tereza Cristina, com peso no agro e no PP, segue como figura central, ainda que seu foco possa se deslocar cada vez mais para Brasília. A eleição de Mato Grosso do Sul será local, mas terá sombras nacionais o tempo todo.

Bolsonaro, Lula, Flávio, Tereza, o agro, o PT, o PL e a federação PP-União Brasil estarão presentes, mesmo quando não estiverem no palanque.

A campanha deve girar em torno de cinco eixos: continuidade administrativa, segurança pública, infraestrutura, saúde e identidade conservadora.

A continuidade é o discurso de Riedel. A segurança será bandeira da direita, especialmente pela fronteira e pelo avanço do crime organizado. A infraestrutura seguirá ligada a obras, logística, Rota Bioceânica, estradas e desenvolvimento. A saúde pode ser o ponto de ataque da oposição, especialmente em Campo Grande. A identidade conservadora será disputada por PL, PP e nomes ligados ao bolsonarismo.

Mas o eleitor não vota apenas em tema. Vota em sensação.

A sensação hoje favorece o governo. Há ordem no campo governista e dificuldade na oposição. Há nomes fortes na centro-direita e ausência de uma candidatura oposicionista capaz de unir tudo que não está com Riedel. Há recursos, prefeitos, estrutura e narrativa de gestão.

Só que a eleição ainda tem meses pela frente.

O cenário provável é Riedel mantendo o favoritismo e Reinaldo consolidando uma vaga ao Senado. A disputa real ficaria concentrada na segunda vaga, com Nelsinho, Contar, Pollon, Soraya e Vander tentando ocupar espaços diferentes do eleitorado.

O cenário intermediário exige que a oposição consiga fazer três movimentos ao mesmo tempo: reduzir a rejeição ao PT, nacionalizar seletivamente os benefícios do governo Lula e regionalizar os problemas da gestão estadual. Se conseguir isso, Fábio Trad pode tentar levar a disputa para um segundo turno. Não é o caminho mais provável hoje, mas é o caminho possível para quem parte atrás.

O cenário improvável, mas politicamente explosivo, seria um racha profundo no PL. Se a escolha entre Contar e Pollon produzir rompimento, ressentimento ou candidatura fora do arranjo principal, o voto conservador pode se dividir. Nesse caso, um nome de centro ou até uma candidatura hoje vista como limitada poderia crescer no segundo voto ao Senado.

Em eleição majoritária, nem sempre vence quem começa melhor. Às vezes vence quem erra menos na reta final.

Por enquanto, Mato Grosso do Sul tem um favorito ao governo, um favorito ao Senado e uma guerra aberta pela segunda cadeira. A oposição tenta sobreviver. O centro tenta encontrar lugar. O bolsonarismo tenta definir dono. O governismo tenta administrar excesso de aliados. E o eleitor, principalmente o menos ideológico, pode acabar decidindo se a eleição será uma confirmação da hegemonia atual ou o início de uma nova acomodação de forças.

A história que se desenha é a de um Estado onde a direita não precisa vencer a esquerda para provar força. Precisa resolver suas próprias disputas.

Esse é o paradoxo de 2026 em Mato Grosso do Sul.

A centro-direita controla o tabuleiro, mas ainda não controla todos os movimentos. Riedel tem a vantagem, Reinaldo tem o caminho mais claro, o PL tem força e problema ao mesmo tempo, Nelsinho tem espaço se a direita se dividir, Fábio Trad tem missão difícil, Soraya precisa reposicionar sua imagem, Vander depende de uma brecha rara e Tereza segue como peça nacional de influência.

A eleição pode até terminar confirmando o favoritismo governista.

Mas até lá, o Senado promete ser o lugar onde todos os cálculos podem mudar.

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