Na propriedade em Águas do Miranda, onde construiu parte importante da própria história, ela revisita escolhas, expõe o peso da doença e deixa mensagens que carregam urgência, afeto e reconciliação.
Há histórias que não pedem enfeite. Pedem escuta.
A de Maria Aparecida Alves Fernandes, mais conhecida como Cida, é uma delas. Aos 61 anos, paciente renal crônica, em sessões de hemodiálise e em preparação para estar apta a entrar na fila de transplantes, ela decidiu transformar a própria dor em recado. Não um recado abstrato, desses que passam rápido. Um recado direto, humano e desconfortável, como costumam ser os mais verdadeiros.
Em entrevista exclusiva concedida em sua propriedade em Águas do Miranda, Cida revisitou a própria trajetória e falou sobre uma vida marcada por trabalho, dedicação à família e descuido com a própria saúde. Mãe de quatro filhos e avó de quatro netos, ela não falou apenas da doença. Falou de escolhas, de excessos, de ausências e do preço que o corpo cobra quando o cuidado vai sendo sempre adiado para depois.
O cenário da entrevista não poderia ser mais simbólico.
Foi ali, naquele refúgio que ela chama de paraíso, que Cida viveu uma parte intensa da própria história. Em Águas do Miranda, ela passou semanas e até meses sozinha. Ali se tornou exímia pescadora e piloteira. Ali construiu autonomia, silêncio e resistência. E é ali também que ela ainda encontra uma ideia de qualidade de vida, mesmo agora visitando o local com menos frequência por causa da rotina dura da hemodiálise, dos exames e da preparação exigida pelo tratamento.
A fala de Cida tem força justamente porque não tenta parecer maior do que é. Ela não fala como personagem. Fala como mulher que viveu muito, trabalhou muito e percebeu, talvez tarde demais, que o corpo não suporta tudo calado.

Essa é a espinha da história.
Durante anos, a dedicação ao trabalho veio antes do cuidado consigo. O tempo foi gasto com obrigações, responsabilidades e rotina. A saúde, como acontece com tanta gente, ficou em segundo plano até deixar de aceitar negociação. Hoje, diante da doença renal crônica, a vida passou a ser medida também por sessões, laudos, exames e pela preparação para tentar alcançar uma nova chance por meio do transplante.
Mas a entrevista não se resume ao adoecimento.
Ela ganha peso porque Cida usa esse momento para deixar mensagens muito claras. Aos familiares e amigos, fala de cuidado, prevenção e da necessidade de olhar para a saúde antes que a urgência substitua a escolha. À filha, faz um pedido carregado de delicadeza e dor: que permita que os netos convivam mais com ela. E, se houver alguma mágoa, que haja também espaço para perdão.
É um dos trechos mais fortes de toda a conversa.



Porque ali a doença deixa de ser apenas clínica e passa a mostrar o que tantas vezes carrega junto: o medo da distância, o desejo de reaproximação, a pressa afetiva que a fragilidade traz. Quando a vida se estreita em torno de tratamento, espera e incerteza, o que era orgulho vira pedido. O que era ruído antigo vira tentativa de reconciliação. O que era mágoa passa a parecer grande demais para continuar de pé.
Cida não romantiza nada disso. E talvez seja exatamente por isso que a entrevista emociona.
Há um contraste muito forte entre a mulher que enfrentou a vida em um lugar isolado, aprendeu a pescar, a pilotar, a ficar sozinha por longos períodos e a construir sua própria sobrevivência, e a mulher que hoje depende de um tratamento permanente, de preparo rigoroso e de critérios médicos para conseguir seguir adiante na luta por um transplante. Esse contraste não diminui sua força. Ao contrário. Dá a medida exata dela.
O refúgio em Águas do Miranda aparece, então, não apenas como cenário bonito. Aparece como extensão da própria identidade de Cida. É o lugar onde ela se reconhece. Onde encontra paz. Onde acredita que a vida tem outra qualidade. E é justamente por isso que dói ainda mais saber que hoje a presença ali é menor, interrompida pela disciplina dura da doença e pelas exigências do tratamento.
Na entrevista, tudo isso ganha uma camada ainda mais importante com o vídeo que será publicado junto à matéria.
Nele, Cida conta com detalhes a própria trajetória. Fala das escolhas que fez, do modo como viveu, do peso do trabalho, da relação com a saúde e do que aprendeu ao ser obrigada a desacelerar. Mais do que complementar a reportagem, o vídeo funciona como documento afetivo. É a própria voz dela organizando a memória, deixando mensagens, fazendo pedidos e tentando dar forma ao que talvez antes estivesse guardado em silêncio.
E é aí que essa história encontra seu sentido mais amplo.
Ela não fala só de uma mulher doente. Fala de uma geração inteira acostumada a resistir sem pausa, a trabalhar sem medida e a empurrar os sinais do corpo para depois. Fala de famílias que acumulam amor e também feridas. Fala de gente que só percebe o valor do tempo quando o tempo deixa de parecer infinito. E fala, sobretudo, da coragem rara de quem decide abrir o peito antes que seja tarde para dizer o que realmente importa.

Cida decidiu falar.
Falou da saúde.
Falou da vida.
Falou da família.
Falou dos netos.
Falou de perdão.
Falou daquilo que muita gente sente, mas não consegue colocar em palavras.
No fim, o que fica não é apenas o retrato de uma paciente renal crônica em tratamento. O que fica é a voz de uma mulher que, diante da própria travessia, resolveu transformar a experiência em alerta, memória e apelo.
E isso, por si só, já torna sua fala maior do que a doença.

