Há conquistas que chegam como prêmio. Outras chegam como consagração.
A entrada de Osmar Pereira Bastos na Academia Brasileira de Medicina Veterinária tem esse segundo peso. Depois de mais de meio século de trajetória profissional, o médico veterinário sul-mato-grossense passa a integrar uma das instituições mais respeitadas do país na área, formada por profissionais que ajudaram a construir a história, a ciência e a educação veterinária no Brasil.
Osmar recebeu a confirmação há poucos dias e admite que ainda está assimilando a dimensão do reconhecimento. Na fala dele, a emoção aparece sem esforço. “Depois de mais de 50 anos desde a minha graduação em medicina veterinária, sinto que esse reconhecimento é uma espécie de coroação. É muita emoção”, afirmou.
A Academia Brasileira de Medicina Veterinária foi criada na década de 1980 e reúne nomes que se destacaram na profissão e podem contribuir para o futuro da área. Para Osmar, esse é justamente o sentido mais profundo dessas instituições. “Essas instituições reúnem profissionais que, de alguma forma, se destacaram da média e que podem contribuir para o futuro da sua área de atuação”, disse.

A frase ajuda a explicar por que essa eleição vai além do prestígio simbólico.
Osmar Bastos construiu uma carreira rara pela combinação de frentes que reuniu ao longo do tempo. Sua história passa pela formação técnica, pelo ensino superior, pela sanidade animal e pela comunicação. Não se trata de um profissional que ficou restrito a uma única trincheira da medicina veterinária. Ao contrário. Ele circulou por diferentes campos e deixou marca em todos eles.
Graduado em Medicina Veterinária pela Universidade de São Paulo, em 1976, também se especializou nos Estados Unidos, pela Iowa State University, e no Brasil, pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Durante 35 anos, foi professor da UFMS, formando gerações de profissionais. Na área de sanidade animal, fundou e coordenou o Laboratório de Doença Animal da Iagro, onde implantou o diagnóstico da raiva em herbívoros e cães no Estado.
Esse percurso, por si só, já sustentaria um currículo de destaque. Mas a trajetória de Osmar ganhou uma dimensão pública ainda maior quando ele levou seu conhecimento para a comunicação.
Ao longo dos anos, tornou-se referência no jornalismo agropecuário justamente por conseguir fazer o que poucos dominam com naturalidade: traduzir conhecimento técnico de forma clara, acessível e útil. Foi pioneiro em programas como MS Rural, além de também ter participado de projetos como Nosso Campo, Record Rural e Agronotícias. Hoje, vive um momento de ampla projeção como editor-chefe e apresentador do Agroeducativa, programa da TV Educativa de Mato Grosso do Sul que ganhou alcance nacional e internacional por meio da Empresa Brasil de Comunicação.
Esse ponto pesa muito na leitura da conquista. Osmar não entra para a academia apenas como professor ou pesquisador. Entra também como alguém que ajudou a aproximar a ciência veterinária da vida real do produtor rural e do público em geral. Sua eleição reconhece não só o acúmulo técnico, mas a capacidade de tornar esse conhecimento relevante, compreensível e socialmente útil.
O próprio Osmar reconhece essa travessia entre áreas com naturalidade. “Minha formação é em medicina veterinária, embora hoje eu também atue no jornalismo, uma profissão que me acolheu e abriu muitas portas. Talvez pela experiência como professor, pela facilidade de comunicação, acabei criando essa ponte entre as áreas”, afirmou.
Essa ponte talvez seja a parte mais forte da sua biografia.
Num país em que o agro muitas vezes oscila entre o excesso de jargão e a simplificação vazia, Osmar construiu uma linguagem de credibilidade. Não abandonou a técnica. Também não se escondeu nela. Fez o caminho mais difícil: o de comunicar sem empobrecer.
A conquista da cadeira nacional também tem um componente humano importante. Osmar contou que, há cerca de três anos, já havia sido convidado a participar do processo seletivo, mas não foi aprovado naquela ocasião. Neste ano, foi novamente chamado a apresentar o currículo. O gesto de tentar outra vez não veio sem hesitação. “Confesso que foi difícil reunir coragem para reapresentar meu currículo, mas fui. E dessa vez deu certo. Deus iluminou meu caminho”, disse.
A fala desmonta a frieza que muitas vezes cerca esse tipo de reconhecimento. Mostra que, mesmo em trajetórias longas e respeitadas, ainda existe espera, insegurança e expectativa. E talvez seja justamente isso que dê mais densidade ao momento.
Há também a dimensão afetiva, que aparece de forma muito forte no depoimento de Osmar. O pai dele também era médico veterinário e foi uma influência decisiva em sua formação. A mãe, segundo ele, foi uma das bases que sustentaram sua caminhada. “Fiz questão de homenagear ele e minha mãe, que sempre investiram na minha formação e acreditaram em mim”, afirmou.
Essa memória familiar não entra no texto como detalhe sentimental. Ela ajuda a explicar o tamanho íntimo desse reconhecimento. A cadeira nacional não celebra apenas uma carreira bem-sucedida. Celebra também uma história construída com inspiração, estudo, persistência e continuidade.
No plano institucional, a entrada de Osmar Bastos na academia também projeta Mato Grosso do Sul. Seu nome passa a ocupar formalmente um espaço nacional de formulação, representação e memória da medicina veterinária brasileira. E isso tem peso em um Estado cuja vida econômica e social mantém relação profunda com o campo.
O diretor-presidente da Educativa MS, Orlando Loureiro, resumiu essa dimensão ao falar do impacto da presença de Osmar tanto na emissora quanto agora na academia. “Quando unimos um especialista deste quilate, como é o Osmar, a um programa de excelência como é o Agroeducativa, é sinal claro de que estamos fazendo um bom jornalismo”, declarou.
A frase acerta no centro da questão. Osmar Bastos não chega a esse reconhecimento por acaso nem apenas pela longevidade. Chega porque construiu uma trajetória consistente, capaz de reunir formação, ensino, serviço público e comunicação especializada sem perder densidade.
No fim, é isso que faz essa conquista ter um peso tão claro.



Ela não consagra apenas um nome conhecido.
Consagra um percurso.
Consagra uma contribuição.
Consagra a capacidade de servir à profissão em mais de uma frente.
Para quem vê de fora, pode parecer apenas mais um título honorífico. Para quem conhece o valor desse tipo de escolha dentro das academias profissionais, o sentido é outro. Trata-se da validação nacional de uma história construída no trabalho diário, ao longo de décadas.
E poucas palavras resumem isso melhor do que as do próprio Osmar: “Me sinto muito honrado por tudo isso”.
Nesse caso, o país é que deveria se sentir honrado por reconhecer em vida uma trajetória dessa dimensão.
FOTOS: Rogério Medeiros
