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Especialista chama atenção para o risco do sofrimento invisível, fala sobre famílias neurodivergentes e defende que o diagnóstico tardio pode ser ponto de virada para autoconhecimento, tratamento e prevenção.

Durante muito tempo, o autismo foi empurrado para uma imagem estreita, quase sempre associada à infância e, muitas vezes, aos meninos. O resultado dessa leitura limitada foi cruel para muita gente. Especialmente para mulheres adultas que passaram anos tentando caber em padrões que nunca explicaram seu modo de sentir, de pensar, de se comunicar e de existir no mundo.

É esse ponto que Michelle Dibo Nacer Hindo traz para o centro do debate com uma afirmação direta e difícil de ignorar: “A importância do diagnóstico adulto, principalmente para a mulher autista, é prevenir um fato muito importante, que é o suicídio.”

A frase não pede enfeite. Pede atenção.

O que Michelle faz ao tocar nesse tema é expor uma camada de sofrimento que, por muito tempo, ficou invisível. Há mulheres que chegam à vida adulta carregando exaustão emocional, sensação persistente de inadequação, dificuldade de pertencimento e anos de leitura errada sobre si mesmas. Muitas foram vistas apenas como excessivamente rígidas, introspectivas, sensíveis demais, difíceis ou deslocadas. Em vez de compreensão, receberam rótulos. Em vez de escuta, adaptação forçada.

Quando o diagnóstico chega, ele não apaga o passado. Mas pode reorganizar o presente.

Uma mulher sorridente com camisa branca, de pé em uma varanda rodeada por plantas verdes.

Michelle, que hoje vive uma nova fase, diz que se sente feliz e pronta para os novos desafios

Na visão de Michelle, esse processo tem valor concreto. “O diagnóstico salva-vidas, promove autoaceitação, correção de rota e busca pelo tratamento”, afirma. A força dessa fala está justamente em retirar o diagnóstico do lugar do medo e colocá-lo no lugar da compreensão. Para muita gente, nomear o que sempre esteve ali não significa prisão. Significa alívio. Significa parar de lutar contra si mesma sem saber por quê.

Outro ponto importante levantado por ela é a relação entre autismo e ambiente familiar. Michelle afirma que pais de autistas, em muitos casos, também estão no espectro em nível 1 ou no chamado fenótipo ampliado, uma condição mais leve, mas que ainda pode trazer prejuízos, especialmente na comunicação social. Na leitura dela, isso ajuda a explicar por que é comum que pessoas com características semelhantes se aproximem, compartilhem gostos, rigidez, modos de funcionamento e construam juntas famílias neurodivergentes.

A observação tem peso porque desloca a conversa do indivíduo isolado para a dinâmica familiar. O autismo, nesse contexto, não aparece apenas como uma condição a ser identificada em uma criança. Ele passa a ser visto também como uma chave de leitura para entender vínculos, comportamentos, repetições e formas de convivência que atravessam gerações.

Michelle vai além ao dizer que raramente um pai ou uma mãe de autista está totalmente fora desse campo de traços. Segundo ela, é muito comum que essas pessoas sejam mais reservadas, rígidas, pontuais e com interesses em comum, o que favorece a formação de casais e famílias com características neurodivergentes. É uma fala que mexe com uma ideia ainda muito difundida: a de que o diagnóstico está sempre “no outro”, nunca perto demais.

Ao trazer esse olhar, ela amplia a discussão. O autismo deixa de ser tratado apenas como uma condição individual e passa a ser pensado também como experiência compartilhada dentro da família, com impactos na forma como se comunica, se organiza, lida com afeto, rotina, frustração e pertencimento.

Há ainda um aspecto muito prático no que Michelle aponta. Ela afirma que Campo Grande já oferece possibilidades de tratamento para autistas adultos, com diferentes correntes de psicoterapia, como terapia cognitivo-comportamental e psicanálise. Ao mencionar isso, ela toca num ponto essencial: o diagnóstico sem caminho posterior corre o risco de virar apenas um nome novo para uma dor antiga. O que dá sentido à descoberta é a possibilidade de reorganização da vida.

E reorganizar a vida, nesse caso, não é pouca coisa.

É rever a própria história com menos culpa. É entender por que certas situações sociais sempre foram mais difíceis. É perceber que exaustões recorrentes talvez não fossem fraqueza. É abandonar a lógica da autocrítica permanente. É buscar tratamento sem vergonha. É, sobretudo, parar de se enxergar como erro.

A fala de Michelle ganha força justamente porque não romantiza. Ela não trata o diagnóstico como moda, identidade vazia ou resposta mágica. Trata como ferramenta de sobrevivência, de autoaceitação e de correção de rota. E isso, num país em que tantos adultos ainda atravessam a vida sem acesso a leitura adequada de si, tem peso real.

Talvez o maior mérito desse debate esteja aí. Mostrar que o diagnóstico na vida adulta não chega tarde demais quando ele interrompe ciclos de sofrimento, devolve sentido à trajetória e abre espaço para tratamento, compreensão e dignidade.

No caso das mulheres, esse tema parece ainda mais urgente. Porque muitas aprenderam cedo a mascarar desconfortos, a imitar comportamentos esperados e a pagar caro, emocionalmente, por essa adaptação constante. Quando o diagnóstico aparece, ele não resolve tudo. Mas pode fazer uma coisa decisiva: devolver coerência à própria vida.

E, às vezes, é justamente isso que salva.

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By Notas e Notícias MS | Redação

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