Pelo segundo ano consecutivo, a campanha Todos por Elas nos estádios passa a integrar ações do Campeonato Sul-Mato-Grossense de Futebol, em uma estratégia que usa a visibilidade do esporte para ampliar a conscientização sobre a violência contra mulheres em Mato Grosso do Sul. O gesto mais simbólico ocorre antes do apito inicial: jogadores das duas equipes entram em campo levando a bandeira da campanha, sinalizando apoio público à causa diante de torcidas e famílias nas arquibancadas.
A iniciativa é promovida pelo Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS), por meio da Coordenadoria Estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar, com apoio da Federação de Futebol de Mato Grosso do Sul (FFMS). A reportagem é da jornalista Daniela Benante.
Campanha Todos por Elas nos estádios: como a ação funciona antes e durante os jogos
A dinâmica é direta, mas cuidadosamente pensada para gerar impacto sem transformar o estádio em palanque. Antes das partidas do Estadual, as equipes entram juntas com a bandeira da campanha, em um ato breve e visualmente forte. Em jogos selecionados, também há distribuição de materiais informativos ao público, reforçando mensagens de prevenção, denúncia e apoio às vítimas.
A presença institucional nos estádios, segundo organizadores, é uma forma de colocar o tema no centro da conversa pública em um ambiente de grande alcance — especialmente em um campeonato que mobiliza torcidas locais, imprensa regional e redes sociais. A parceria entre TJMS e FFMS começou em 2025, e a temporada 2026 marca a consolidação do projeto no calendário do futebol estadual.
Para o presidente da Federação, Estevão Petrallás, o objetivo é dialogar com públicos diversos: homens, mulheres, jovens e famílias inteiras que acompanham o campeonato. A lógica é simples: se o futebol é um espaço de influência cultural e de mobilização, ele também pode ser uma vitrine de responsabilidade social.
Campanha Todos por Elas nos estádios e o retrato do feminicídio em Mato Grosso do Sul
A decisão de levar a campanha ao ambiente do futebol ocorre em um contexto de números preocupantes. Em 2025, Mato Grosso do Sul registrou 39 casos de feminicídio, segundo levantamentos divulgados no estado. O dado reforça um ponto central da política de enfrentamento: campanhas não substituem investigação, punição e proteção — mas ajudam a reduzir silêncio, normalização e subnotificação, que são combustível para a violência doméstica.
A campanha atua justamente nesse “ponto cego” social: a violência contra a mulher muitas vezes acontece dentro de casa, com autor conhecido da vítima, e evolui em escalada. A mensagem que se tenta fixar é preventiva e prática: reconhecer sinais, buscar ajuda, denunciar, acionar rede de proteção e romper o isolamento.
Por que o futebol entrou na estratégia: o que estudos apontam sobre dias de jogo e violência doméstica
A subsecretária de Políticas Públicas para as Mulheres, Manuela Nicodemus, destaca que a presença da campanha nos estádios é estratégica porque pesquisas apontam aumento de ocorrências de violência doméstica em dias de jogos. O tema já foi analisado em estudos nacionais sobre correlação entre partidas e crescimento de registros de ameaça e agressão em capitais brasileiras.
Esse dado é importante por dois motivos. Primeiro, porque desloca a discussão do “caso isolado” para um fenômeno social com padrões mensuráveis. Segundo, porque mostra por que ações de conscientização fazem sentido exatamente onde há atenção coletiva e emoção em alta. O objetivo não é demonizar o futebol — é usar o alcance do futebol para afirmar uma ideia básica: violência não é “briga de casal”, é crime. E tem consequência.
Campeonato Sul-Mato-Grossense 2026: calendário, alcance e o papel das arquibancadas
A edição 2026 do Campeonato Sul-Mato-Grossense começou em 18 de janeiro e segue até 29 de março, reunindo 10 equipes. Em um estadual com presença forte de clubes do interior e partidas espalhadas por diferentes municípios, o campeonato cria uma rede de alcance regional que poucas ações institucionais conseguem reproduzir com a mesma capilaridade.
É nesse ponto que a campanha ganha força: cada jogo vira uma oportunidade de repetir mensagem, reforçar canais de denúncia e lembrar que a violência doméstica não é um tema “de mulher” — é um problema de segurança pública, saúde, justiça e comunidade. Para além do símbolo, a presença constante da pauta em ambientes populares funciona como lembrete coletivo e ajuda a reduzir a tolerância social ao agressor.
Outras causas que entram em campo: doação de sangue e cadastro de medula
O Estadual 2026 também abriu espaço para outras iniciativas sociais, como a do Instituto Sangue Bom, que incentiva a doação de sangue e o cadastro de medula óssea. A coexistência de campanhas aponta uma tendência: usar eventos esportivos como plataforma de cidadania, sem tirar o foco do jogo, mas ampliando o papel social do espetáculo.
No caso do enfrentamento à violência contra a mulher, o recado é especialmente sensível e urgente. A ideia é transformar o estádio em um lugar de reflexão possível — sem discursos longos, mas com sinais claros: a comunidade está olhando, existe rede de apoio e há caminhos para sair do ciclo de violência.
Onde buscar ajuda e como denunciar
Em situações de violência, ameaça ou risco, a orientação é procurar ajuda imediatamente. O serviço Ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher) funciona como canal de orientação e encaminhamento. Em emergência, acione a Polícia Militar pelo 190. Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMs) e serviços municipais de assistência social também integram a rede de proteção.
A campanha aposta em uma mudança cultural que não acontece do dia para a noite: tirar a violência doméstica da sombra, colocar informação na rua — e usar a força do futebol para repetir, com todas as letras, que feminicídio não é estatística aceitável.
Redação do Site Notas e Notícias MS

