Desde a volta das eleições presidenciais diretas, nenhum candidato que terminou o primeiro turno na liderança perdeu a Presidência na segunda votação. Em 2026, Flávio Bolsonaro saiu na frente de Lula e chega aos últimos dias de campanha numericamente à frente em grande parte das pesquisas, embora a disputa permaneça tecnicamente apertada.
Há números que medem uma eleição. E há números que contam uma história.
A eleição presidencial de 2026 chega aos últimos dias com Flávio Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva separados por margens pequenas nas pesquisas, num cenário em que praticamente todos os institutos recomendam a mesma palavra: cautela.
Mas existe um dado histórico que não pode ser ignorado.
Desde 1989, toda vez que uma eleição presidencial brasileira precisou de segundo turno, o candidato que saiu na frente no primeiro terminou eleito presidente.
Aconteceu com Fernando Collor.
Aconteceu com Lula em 2002 e 2006.
Aconteceu com Dilma Rousseff em 2010 e 2014.
Aconteceu com Jair Bolsonaro em 2018.
E aconteceu novamente com Lula em 2022.
Em três décadas e meia, ninguém conseguiu inverter essa ordem numa eleição presidencial brasileira.
Agora, pela primeira vez, Lula chega ao segundo turno ocupando o segundo lugar.
Quem está na posição historicamente vencedora é Flávio Bolsonaro.
Flávio chegou primeiro
No dia 4 de outubro, com 100% das urnas apuradas, Flávio recebeu 56.104.268 votos, correspondentes a 47,03% dos votos válidos.
Lula terminou com 53.876.617 votos, ou 45,16%.
A diferença foi de aproximadamente 2,23 milhões de votos.
Foi uma disputa apertada. A menor diferença entre primeiro e segundo colocados no primeiro turno desde a redemocratização.
Mas apertado não significa irrelevante.
Flávio chegou ao segundo turno carregando aquilo que nenhum candidato presidencial conseguiu desperdiçar desde 1989: a liderança da primeira votação.
A história dos segundos turnos presidenciais
| Eleição | Líder no 1º turno | Resultado final |
|---|---|---|
| 1989 | Fernando Collor | Eleito |
| 2002 | Lula | Eleito |
| 2006 | Lula | Eleito |
| 2010 | Dilma Rousseff | Eleita |
| 2014 | Dilma Rousseff | Eleita |
| 2018 | Jair Bolsonaro | Eleito |
| 2022 | Lula | Eleito |
| 2026 | Flávio Bolsonaro | 2º turno em 25/10 |
As eleições de 1994 e 1998 não aparecem na tabela porque Fernando Henrique Cardoso venceu ambas ainda no primeiro turno.
Esse histórico não é uma profecia.
Segundo turno é outra eleição. Os votos anteriores são zerados, como estabelece a própria Justiça Eleitoral.
Mas ignorar uma sequência que atravessou todos os segundos turnos presidenciais da Nova República seria ignorar uma das regularidades mais interessantes da política eleitoral brasileira.
É Lula, desta vez, quem precisa quebrá-la.
E as pesquisas?
Elas contam uma história parecida, embora muito menos definitiva.
Não existe, neste momento, uma pesquisa capaz de afirmar que a eleição esteja resolvida.
Boa parte dos levantamentos registra empate técnico.
Mas existe outro fato difícil de apagar: Flávio aparece numericamente à frente em vários dos principais institutos divulgados nesta reta final.
Pesquisas recentes em votos válidos
| Instituto | Flávio Bolsonaro | Lula | Situação |
|---|---|---|---|
| PoderData – 22/10 | 51% | 49% | diferença dentro da margem |
| Quaest – 21/10 | 50,56% | 49,44% | empate técnico |
| Futura – 21/10 | 51,1% | 48,9% | empate técnico |
| Veritá – 21/10 | 50,7% | 49,3% | empate técnico |
| Meio/Ideia – 21/10 | 51,1% | 48,9% | empate técnico |
| AtlasIntel – 19/10 | 51,1% | 48,9% | diferença estreita |
| Nexus/BTG – 19/10 | 50,3% | 49,7% | empate técnico |
| Datafolha – 15/10 | 51% | 49% | empate técnico |
A nova rodada do Datafolha está prevista para ser divulgada nesta quinta-feira (22), depois das 19h.
O que a tabela mostra não é uma eleição encerrada.
Mostra algo mais simples: a poucos dias da votação, Lula ainda não conseguiu estabelecer uma liderança consistente sobre o adversário que o derrotou no primeiro turno.
E isso importa.
Uma eleição de centímetros, não de quilômetros
A campanha chegou a um ponto em que diferenças de dois, três ou até quatro pontos precisam ser analisadas com extremo cuidado.
O PoderData divulgado nesta quinta-feira coloca Flávio com 51% dos votos válidos, contra 49% de Lula. Foram ouvidos 4 mil eleitores entre 19 e 21 de outubro, e a margem de erro é de 1,6 ponto percentual.
Na Quaest divulgada na quarta-feira, Flávio aparece com 45% dos votos totais e Lula com 44%. Convertidos em válidos, são aproximadamente 50,56% contra 49,44%.
A Futura registra 51,1% a 48,9%.
O Veritá, 50,7% a 49,3%.
O Nexus/BTG, praticamente uma fotografia dividida ao meio: 50,3% a 49,7%.
É uma eleição de centímetros.
Mas, até agora, esses centímetros têm aparecido com frequência do mesmo lado.
O desafio de Lula
Lula conhece melhor que qualquer outro personagem desta eleição a importância de chegar na frente ao segundo turno.
Em 2002, liderou a primeira votação e venceu José Serra.
Em 2006, terminou o primeiro turno à frente de Geraldo Alckmin e venceu novamente.
Em 2022, liderou Jair Bolsonaro na primeira etapa e confirmou a vantagem no segundo turno, numa diferença final estreitíssima de 50,90% contra 49,10%.
Agora está do outro lado da equação.
É Lula quem precisa buscar votos suficientes para ultrapassar o vencedor do primeiro turno.
E o problema para o presidente não está apenas na diferença de 4 de outubro.
Está no fato de que a virada ainda não apareceu de maneira inequívoca nas pesquisas.
Onde Flávio encontra votos
O Datafolha ajuda a explicar parte dessa resistência.
No levantamento divulgado em 15 de outubro, Flávio apresentava vantagens especialmente fortes entre eleitores evangélicos, onde marcava 62% contra 29% de Lula, e na região Sul, com 57% contra 35%.
Lula, por sua vez, mantinha ampla dianteira no Nordeste, entre eleitores de menor renda, entre pessoas com escolaridade fundamental e entre pretos.
A eleição, portanto, continua reproduzindo divisões conhecidas do mapa político brasileiro.
Mas há um grupo particularmente importante.
Entre eleitores que votaram em Augusto Cury, Renan Santos, Ronaldo Caiado ou Romeu Zema no primeiro turno, o Datafolha indicava que 46% migravam para Flávio, enquanto 27% declaravam voto em Lula.
É justamente nesse eleitorado que reside parte significativa dos votos disponíveis fora das duas candidaturas que chegaram ao segundo turno.
Há outro número incômodo para Lula
Na mesma pesquisa Datafolha, 54% dos entrevistados diziam acreditar que Flávio venceria a eleição, contra 37% que apontavam Lula.
Essa pergunta não mede intenção de voto.
Mede expectativa.
E expectativa não elege presidente.
Mas ela revela a percepção existente naquele momento sobre o ambiente eleitoral.
Há uma diferença entre desejar que alguém vença e acreditar que alguém vencerá.
Em campanhas apertadas, essa percepção pode adquirir importância porque ajuda a medir o clima em torno das candidaturas.
A rejeição também está praticamente dividida
Outro elemento desmonta qualquer interpretação de eleição fácil.
Na rodada Datafolha de 15 de outubro, 46% rejeitavam exclusivamente Lula e 44% rejeitavam exclusivamente Flávio.
Ou seja: os dois chegam à reta final carregando contingentes enormes de eleitores que não pretendem votar neles.
Essa talvez seja a melhor explicação para o equilíbrio das pesquisas.
O Brasil de 2026 não parece estar escolhendo apenas entre dois projetos.
Uma parcela significativa está também escolhendo contra um deles.
História ajuda. História não vota
É tentador olhar para a sequência histórica e transformar correlação em destino.
Seria um erro.
O próprio TSE lembra que o segundo turno é uma nova eleição. Os votos do primeiro não são transferidos automaticamente. Cada eleitor precisa voltar à urna e escolher novamente.
Portanto, o fato de nenhum segundo colocado no primeiro turno ter conseguido virar uma eleição presidencial desde 1989 não cria qualquer impedimento para que isso aconteça agora.
Mas cria um peso histórico.
Se Lula vencer no domingo, fará algo que nenhum candidato presidencial conseguiu desde que o Brasil recuperou as eleições diretas: perder o primeiro turno e ganhar o segundo.
Se Flávio vencer, acrescentará seu nome a uma sequência que permanece intacta há 37 anos.
O dado que Lula precisa derrotar
As pesquisas dizem que a eleição está aberta.
A matemática diz que as diferenças são pequenas.
A história diz outra coisa.
Desde Fernando Collor, em 1989, todo candidato que atravessou a porta do segundo turno ocupando o primeiro lugar saiu dela presidente da República.
Sete disputas.
Sete confirmações.
Flávio Bolsonaro chegou primeiro em 2026.
Lula tem até domingo para provar que, desta vez, a história pode terminar de outro jeito.
