Medidas adotadas pelo governo Lula aliviam renda, combustível e crédito no presente, mas ampliam o debate sobre a capacidade fiscal da União nos próximos anos. Em Mato Grosso do Sul, onde agro, infraestrutura e municípios dependem de decisões federais, a discussão passa longe de Brasília apenas no mapa.
O número chama atenção antes mesmo de qualquer interpretação política: R$ 354,3 bilhões.
É o valor reunido pelo chamado “Gastômetro”, levantamento do Estadão que contabiliza 46 medidas anunciadas ou adotadas pelo governo Luiz Inácio Lula da Silva em diferentes frentes durante o período eleitoral.
A cifra reúne benefícios sociais, renúncias tributárias, créditos, subvenções e programas fora do Orçamento.
E é justamente aqui que começa a primeira diferença entre discurso e realidade fiscal.
Não são R$ 354,3 bilhões simplesmente retirados do caixa federal e gastos. Dentro do total existem operações de crédito que podem retornar aos cofres públicos, impostos que deixam de ser arrecadados, subsídios e despesas efetivas.
Mas também seria superficial olhar para um volume dessa dimensão e fingir que ele não tem consequências fiscais.
O debate verdadeiro está no que acontece depois.
E Mato Grosso do Sul tem motivos concretos para acompanhar essa conta.
De onde vêm os R$ 354,3 bilhões
O levantamento divide as medidas em cinco grandes grupos:
| Categoria | Valor aproximado |
|---|---|
| Créditos e subvenções | R$ 180,6 bilhões |
| Benefícios sociais | R$ 69,6 bilhões |
| Renúncias de receitas | R$ 68,5 bilhões |
| Programas fora do Orçamento | R$ 34,8 bilhões |
| Publicidade | R$ 840 milhões |
| Total | R$ 354,3 bilhões |
Entre as medidas aparecem linhas de financiamento, programas habitacionais, benefícios sociais, incentivos relacionados ao diesel, mudanças tributárias e renegociações de dívidas.
Portanto, comparar todo esse valor a uma única despesa orçamentária seria incorreto.
A questão mais importante é outra: quanto espaço o governo terá nos próximos anos para manter benefícios, cumprir metas fiscais, financiar investimentos e administrar uma dívida pública crescente?
É aí que Mato Grosso do Sul entra na história.
No bolso de MS, os benefícios são reais
Uma das medidas de maior alcance direto é a ampliação da isenção do Imposto de Renda.
Em Mato Grosso do Sul, 162.987 contribuintes que recebem até R$ 5 mil mensais passaram a ser alcançados pela isenção, enquanto outros 82.010, com renda de até R$ 7,35 mil, recebem descontos progressivos.
São aproximadamente 245 mil sul-mato-grossenses diretamente beneficiados.
Estimativa divulgada no Estado apontou potencial superior a R$ 600 milhões por ano permanecendo na economia sul-mato-grossense, em vez de seguir para o recolhimento do imposto.
É dinheiro que pode chegar ao comércio, aos serviços, ao pagamento de dívidas e ao consumo das famílias.
Aqui, portanto, existe efeito econômico concreto.
O Pé-de-Meia também alcança milhares de jovens
Outro programa incluído nas discussões sobre expansão de benefícios possui presença significativa em Mato Grosso do Sul.
Em abril deste ano, o governo federal informava que aproximadamente 64 mil estudantes sul-mato-grossenses eram atendidos pelo Pé-de-Meia.
O programa alcançava mais de 45% dos estudantes do ensino médio público no Estado.
Do ponto de vista social, o impacto é mensurável.
Do ponto de vista fiscal, contudo, benefícios permanentes ou recorrentes precisam disputar espaço dentro de um orçamento federal cada vez mais pressionado pelas despesas obrigatórias.
As duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo.
Uma política pública pode produzir benefício social e, simultaneamente, exigir que o governo demonstre de onde virão os recursos necessários para mantê-la.
Para o agro de MS, a palavra é diesel
Talvez nenhum item aproxime tanto Brasília do cotidiano econômico de Mato Grosso do Sul quanto o combustível.
O Estado depende do transporte rodoviário para escoar parte significativa de sua produção agropecuária.
Em março, durante a escalada do preço internacional do petróleo, produtores e transportadoras sul-mato-grossenses enfrentaram forte pressão sobre os custos do diesel.
A redução temporária de PIS e Cofins sobre o combustível foi comemorada pelo setor agropecuário. As duas contribuições representavam aproximadamente 10,5% do preço do diesel.
Para um Estado que produz soja, milho, carne, celulose e movimenta grandes volumes por rodovias, uma redução no combustível não é um detalhe.
Ela chega ao custo da colheita, ao frete e à margem do produtor.
Mas também representa renúncia de arrecadação federal.
Novamente surge a mesma equação: o benefício imediato existe. A questão fiscal é como financiá-lo sem comprometer o amanhã.
A preocupação começa em 2027 e cresce até 2030
Esse é provavelmente o ponto mais importante levantado no vídeo.
As contas públicas brasileiras entram no próximo ciclo de governo submetidas a metas fiscais progressivamente mais exigentes.
O projeto da Lei de Diretrizes Orçamentárias prevê resultado primário central de R$ 73,2 bilhões em 2027.
Depois, a exigência cresce:
| Ano | Meta central projetada |
|---|---|
| 2027 | R$ 73,2 bilhões |
| 2028 | R$ 157,3 bilhões |
| 2029 | R$ 211,1 bilhões |
| 2030 | R$ 272,2 bilhões |
Isso significa que o governo federal precisará melhorar significativamente a relação entre receitas e despesas ao longo dos próximos quatro anos.
E os órgãos técnicos já fazem alertas.
A Consultoria de Orçamento da Câmara apontou dificuldades para estabilizar a dívida pública mesmo dentro das projeções apresentadas pelo governo.
O Tribunal de Contas da União também chamou atenção para o crescimento das despesas obrigatórias e para a redução do espaço disponível para despesas discricionárias.
É justamente nessa parte do orçamento que normalmente estão investimentos, equipamentos e uma parcela importante da execução das políticas que não são obrigatórias.
E por que isso interessa tanto a Mato Grosso do Sul?
Porque o desenvolvimento do Estado não depende apenas do caixa estadual.
Mato Grosso do Sul possui projetos que passam por financiamento, convênios e investimentos federais.
Somente em maio deste ano, por exemplo, Caixa e Sanesul assinaram R$ 176,6 milhões em contratos para obras de abastecimento de água e esgotamento sanitário em 16 municípios, dentro de programas associados ao Novo PAC e ao Avançar Cidades.
Existem ainda investimentos federais em rodovias, educação, saúde, habitação e infraestrutura.
Isso não significa que esses recursos estejam ameaçados ou que haverá cortes automáticos.
Não há base hoje para afirmar isso.
Mas existe uma regra econômica simples: quanto menor o espaço fiscal da União, maior tende a ser a disputa por cada real disponível para investimento discricionário.
É nesse ponto que uma discussão aparentemente nacional começa a chegar diretamente às cidades sul-mato-grossenses.
O dilema: benefício agora, ajuste depois?
É a pergunta inevitável.
O governo Lula argumenta que muitas das medidas possuem compensações, promovem justiça tributária, estimulam atividade econômica e atendem necessidades sociais.
Na mudança do Imposto de Renda, por exemplo, a União afirma que a perda de arrecadação na base será compensada pela tributação das rendas mais altas.
Também é necessário separar crédito de gasto público, algo que frequentemente se perde no debate político.
Por outro lado, organismos técnicos vêm alertando há anos para a rigidez crescente do orçamento e para a trajetória da dívida.
A Consultoria de Orçamento da Câmara afirma que, mesmo num cenário considerado favorável, a estabilização da dívida continua sendo um desafio.
Portanto, a pergunta não é simplesmente se o governo “gastou R$ 354 bilhões”.
A pergunta correta é mais difícil:
o conjunto de decisões tomadas em 2026 é sustentável quando chegar a hora de cumprir as metas de 2027, 2028, 2029 e 2030?
Mato Grosso do Sul tem muito a ganhar e muito a observar
Para o trabalhador sul-mato-grossense que deixou de pagar Imposto de Renda, a discussão fiscal pode parecer distante diante do dinheiro que passou a permanecer no orçamento familiar.
Para o estudante contemplado pelo Pé-de-Meia, o efeito é igualmente concreto.
Para o produtor rural que enfrenta um diesel mais caro, qualquer redução tributária pode representar alívio imediato.
Esses benefícios existem e precisam ser reconhecidos.
Mas o Estado também precisa de rodovias, saneamento, habitação, saúde, universidades, segurança de fronteira e investimentos federais.
E esses recursos também precisam caber em algum lugar.
É justamente esse o paradoxo que a eleição de 2026 deixa para o próximo governo.
O benefício chega primeiro.
A conta fiscal chega depois.
E, quando Brasília começar a decidir onde economizar, onde investir e de onde retirar recursos para alcançar metas cada vez maiores, Mato Grosso do Sul terá interesse direto nessa discussão.
Porque, no fim, R$ 354 bilhões podem parecer um número distante. Até o momento em que a conta começa a decidir quais obras, programas e investimentos conseguirão sair do papel.
