Banner TSE

PECs, projetos contra violência política e ações educacionais mostram que o enfrentamento ao racismo estrutural entrou em nova fase institucional

O Brasil já reconheceu o problema. Agora precisa decidir se terá coragem de enfrentá-lo.

Depois de anos em que o racismo estrutural foi tratado como conceito de debate acadêmico ou denúncia dos movimentos sociais, a pauta começa a ganhar contornos mais objetivos no campo institucional: fundos de reparação, proteção contra violência política, ações educacionais e cobrança por políticas públicas permanentes.

O movimento é relevante porque muda o eixo da conversa.

Sai da pergunta “existe racismo estrutural?” e entra em outra, muito mais concreta: quem vai pagar a conta da reparação?

O peso das PECs da reparação

No Congresso, duas propostas concentram parte dessa disputa.

A PEC 27/2024, em análise na Câmara dos Deputados, propõe criar o Fundo Nacional de Reparação Econômica e de Promoção da Igualdade Racial, com o objetivo de promover igualdade de oportunidades e inclusão social de brasileiros pretos e pardos. A proposta teve parecer aprovado na comissão especial em dezembro de 2025, na forma de substitutivo.

No Senado, a PEC 33/2016, de autoria do senador Paulo Paim, propõe criar o Fundo de Promoção da Igualdade Racial, voltado a políticas públicas em áreas como habitação, educação e formação profissional.

As duas propostas partem da mesma constatação: sem financiamento permanente, a igualdade racial segue dependente de programas pontuais, governos de ocasião e discursos sem continuidade.

A reparação, para sair do papel, precisa de dinheiro, regra, gestão e fiscalização.

Violência política também é barreira

A disputa por reparação não acontece apenas no orçamento. Ela também passa pela proteção de mulheres que ocupam espaços de poder.

O PL 68/2025, apresentado pela deputada Daiana Santos, altera a Lei 14.192/2021 e o Código Eleitoral para incluir medidas específicas de proteção e apoio a mulheres em espaços de poder que sofram violência política de gênero. A proposta está pronta para pauta no Plenário da Câmara.

O projeto tem dois apensados, entre eles o PL 1015/2025, do deputado Alexandre Guimarães, que institui o Programa Nacional de Enfrentamento da Violência Política de Gênero.

Esse debate é decisivo porque a violência política não atua apenas durante campanha eleitoral. Ela aparece no constrangimento, na intimidação, na deslegitimação pública e na tentativa de expulsar mulheres, sobretudo negras, dos espaços de decisão.

Não há reparação real se as lideranças negras continuam sendo atacadas quando tentam disputar poder.

Educação como campo de reparação

A reparação também está sendo disputada dentro das escolas.

O Julho das Pretas nas Escolas 2026 reúne 288 atividades articuladas por 128 organizações, educadoras e estudantes em creches, escolas, universidades e outros espaços educacionais em 21 estados e no Distrito Federal. A agenda inclui rodas de conversa, festivais, oficinas, exposições, ciclos formativos, seminários e marchas.

A ação, organizada desde 2019 pelo Odara – Instituto da Mulher Negra, busca enfrentar o racismo e as múltiplas violências que atingem meninas e adolescentes negras no ambiente escolar.

Esse ponto é estratégico.

A escola pode reproduzir apagamento ou produzir reconhecimento. Pode ensinar a história negra apenas pela dor da escravidão ou apresentar protagonismo, pensamento, ciência, arte, liderança e ancestralidade.

Quando a educação reconhece meninas negras como sujeitos de futuro, ela também atua como reparação.

O desafio é transformar pressão em política

O cenário de 2026 mostra uma convergência rara.

De um lado, os dados do Atlas da Violência escancaram a permanência da letalidade racial. De outro, o STF reconheceu o racismo estrutural e graves violações de direitos fundamentais. Ao mesmo tempo, movimentos de mulheres negras ampliam mobilização nacional e internacional, enquanto o Congresso discute instrumentos legais e financeiros de reparação.

A pergunta é se essa convergência produzirá mudança concreta ou apenas mais uma rodada de reconhecimento público sem consequência prática.

Porque o Brasil já sabe o diagnóstico.

Sabe quem morre mais.

Sabe quem recebe menos proteção.

Sabe quem ocupa menos poder.

Sabe quem carrega a desigualdade nas costas.

A reparação racial será o teste de sinceridade institucional do país. Se virar orçamento, lei, escola, proteção e presença negra nos espaços de decisão, será avanço. Se ficar apenas no discurso, será mais uma forma sofisticada de adiar justiça.

Deixe uma resposta

Descubra mais sobre Notícias de Mato Grosso do Sul

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo