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Mato Grosso do Sul entra na eleição de 2026 com uma direita forte, organizada e aparentemente favorita. Mas é justamente aí que mora o risco.

Eduardo Riedel aparece na dianteira pela reeleição. O PL virou a maior bancada da Assembleia Legislativa. Reinaldo Azambuja desponta como nome forte para o Senado. Tereza Cristina segue como uma das principais lideranças nacionais do campo conservador. No papel, é um cenário de domínio. Na prática, pode ser também o início de uma disputa dura por espaço dentro do mesmo bloco político.

A eleição estadual ainda terá campanha, rua, desgaste, alianças, erros e fatos novos. Mas o desenho atual mostra uma vantagem clara do grupo governista. Riedel não lidera sozinho. Ele lidera dentro de uma estrutura que combina máquina pública, articulação partidária, força municipal, bancada legislativa e palanque conservador.

Esse é o ponto central da disputa.

A direita em Mato Grosso do Sul não está apenas competitiva. Ela está ocupando o centro do tabuleiro. E quando um grupo ocupa espaço demais, o adversário externo deixa de ser o único problema. A briga passa a ser também interna: quem comanda, quem aparece, quem herda, quem compõe e quem fica sem lugar.

A pesquisa Real Time Big Data divulgada em maio mostra Riedel com 43% das intenções de voto no primeiro turno. Fábio Trad, do PT, aparece em segundo lugar, com 21%. João Henrique Catan, do Novo, surge com 11%. O levantamento também aponta vantagem do governador em todos os cenários de segundo turno testados.

Catan, Riedel e Fábio

O dado confirma o favoritismo, mas não encerra a eleição. Pesquisa é fotografia, não sentença. Ainda assim, a fotografia atual é confortável para Riedel. Ele aparece com vantagem ampla, aprovação relevante e uma oposição que precisa crescer muito para transformar a disputa em risco real.

O governador tem hoje o ativo mais valioso de uma campanha de reeleição: a sensação de estabilidade. Não é um candidato em busca de apresentação. É o chefe do Executivo tentando convencer o eleitor de que o caminho já está dado e que a troca seria uma aposta mais arriscada do que a continuidade.

Essa é uma narrativa poderosa em Mato Grosso do Sul, especialmente quando vem embalada por apoio do agro, articulação com lideranças locais e uma base política que se reorganizou em torno do projeto de permanência no poder.

Mas a força de Riedel não pode ser lida isoladamente. Ela depende de uma engrenagem maior. E essa engrenagem passa pelo PL.

A janela partidária mudou o peso real das siglas na Assembleia Legislativa. O PL recebeu Mara Caseiro, Paulo Corrêa, Zé Teixeira, Marcio Fernandes e Lucas de Lima, somando-se a Coronel David e Neno Razuk. Com sete deputados estaduais, tornou-se a maior bancada da Casa.

Isso não é detalhe de bastidor. É poder concreto.

Collage de retratos de políticos em diferentes ambientes, incluindo um discurso em câmara, fotos oficiais e eventos públicos.

Bancada grande significa influência em votações, presença territorial, estrutura de campanha, capacidade de pressão e força para negociar palanques. Em ano eleitoral, partido com bancada robusta não pede espaço. Ele impõe condição.

O crescimento do PL também marca uma mudança simbólica. O partido deixou de ser apenas a legenda mais identificada com o bolsonarismo no Estado. Passou a ser uma plataforma de acomodação de lideranças experientes, inclusive nomes vindos do antigo eixo tucano.

É aí que a eleição de 2026 ganha densidade.

O PSDB, que durante anos funcionou como centro de gravidade da política sul-mato-grossense, perdeu protagonismo. Parte de seus quadros migrou para o PL. Outros se reorganizaram em partidos aliados. A antiga casa do poder estadual já não parece ditar o ritmo do jogo. O comando se deslocou.

A direita não apenas cresceu. Ela mudou de endereço.

Nesse novo arranjo, Reinaldo Azambuja aparece como personagem-chave. Ex-governador, presidente estadual do PL e operador de bastidor, ele reúne recall eleitoral, influência municipal e comando partidário. Sua pré-candidatura ao Senado não é apenas uma tentativa de voltar a Brasília. É também um movimento para consolidar o PL como força dominante no ciclo pós-PSDB.

Azambuja lidera a corrida ao Senado em cenário pesquisado pela Real Time Big Data. No levantamento, aparece com 28%, seguido por Marcos Pollon, também do PL, com 21%, e Nelsinho Trad, com 16%. Como o eleitor votará em dois nomes para o Senado em 2026, o segundo voto vira o território mais instável da eleição.

E é justamente ali que a direita pode se complicar.

O campo conservador tem nomes demais para vagas de menos. Azambuja larga forte. Pollon tem voto ideológico e presença digital. Capitão Contar ainda representa uma fatia do eleitorado bolsonarista. Nelsinho Trad tenta preservar espaço próprio na centro-direita, especialmente em Campo Grande. Soraya Thronicke busca reeleição. Vander Loubet tenta ocupar o espaço da esquerda.

A disputa ao Senado pode ser mais explosiva do que a corrida ao governo.

Riedel, por ora, parece ter uma estrada mais pavimentada. O Senado, não. A segunda vaga tende a concentrar vaidades, ressentimentos, acordos incompletos e disputas por legitimidade dentro do eleitorado conservador.

Esse é o ponto mais sensível para o bloco governista. Se a direita chegar unida, pode transformar 2026 em uma eleição de consolidação. Se chegar rachada, pode abrir uma brecha que hoje a oposição ainda não tem força suficiente para criar sozinha.

A oposição, aliás, enfrenta uma equação difícil. Fábio Trad aparece como principal nome contra Riedel, mas carrega o desafio de ampliar seu alcance para além do eleitorado tradicional do PT. Em Mato Grosso do Sul, o voto progressista existe, mas não basta. Para crescer, Trad precisará falar com o eleitor moderado, com servidores, periferia urbana, mulheres, pequenos empresários e setores que podem ter críticas ao governo sem necessariamente se identificar com a esquerda.

A campanha petista terá de fazer uma escolha estratégica: nacionalizar a disputa ou estadualizar a crítica.

Três homens se cumprimentando e sorrindo em um ambiente ao ar livre, com palmeiras ao fundo.

Se nacionalizar demais, corre o risco de entregar o terreno para a direita, que tem base forte no eleitorado conservador do Estado. Se estadualizar demais, pode perder o impulso do campo lulista e ficar sem energia política suficiente para crescer. O caminho mais provável será tentar uma combinação: usar a estrutura nacional do PT, mas vender Fábio Trad como alternativa local, pragmática e menos ideológica.

Não será simples.

A força de Riedel está justamente em ocupar o espaço da gestão. Ele não precisa fazer campanha como agitador. Pode fazer campanha como administrador. Isso reduz o atrito, afasta parte da rejeição ideológica e dificulta o ataque frontal.

Ao mesmo tempo, Riedel precisa administrar aliados muito fortes. E aliado forte também cobra.

A federação União Progressista, formada por PP e União Brasil, amplia a musculatura do campo governista. Nacionalmente, a federação passa a atuar de forma integrada. Em Mato Grosso do Sul, ela reforça o projeto de reeleição de Riedel e a montagem de chapas proporcionais. Mas também cria uma arena de disputa por espaço entre partidos que precisam caminhar juntos, mesmo tendo ambições próprias.

Tereza Cristina já indicou que o foco do PP será a reeleição de Riedel e a composição para deputados. Também afirmou que o partido deve apoiar Reinaldo Azambuja para uma das vagas ao Senado, deixando a segunda posição ainda sem definição fechada. Na prática, isso mostra que o bloco tem prioridade, mas ainda não tem toda a equação resolvida.

E eleição se perde muitas vezes no detalhe que parecia administrável.

A direita sul-mato-grossense chega a 2026 com vantagem porque tem nomes, estrutura e narrativa. Mas também chega com um problema típico de quem cresceu rápido: acomodar todos os interesses sem parecer que alguém foi passado para trás.

O PL quer protagonismo. O PP quer preservar o governo. O União Brasil quer espaço na federação. Republicanos, PSDB e outros aliados querem sobrevivência e participação na chapa. Os nomes ao Senado querem palanque, tempo, apoio e clareza. Nenhum ator relevante quer entrar apenas para bater palma.

É aí que a disputa interna pode custar caro.

A eleição não será definida apenas por quem aparece melhor nas pesquisas. Será definida também por quem conseguir organizar melhor o próprio campo. A vantagem de Riedel depende de unidade. A força de Azambuja depende de composição. O crescimento do PL depende de disciplina. E a direita, hoje, parece ter força suficiente para vencer, mas também tamanho suficiente para criar seus próprios problemas.

O eleitor comum talvez não acompanhe cada filiação, cada federação e cada cálculo de chapa. Mas ele sente o efeito quando um grupo político passa a disputar demais entre si. A mensagem perde clareza. O palanque fica ruidoso. As alianças ficam atravessadas. E a campanha começa a gastar energia explicando o que deveria estar resolvido.

A oposição aposta justamente nisso: no erro do favorito.

Sem uma mudança brusca no cenário, a candidatura de Fábio Trad precisará explorar contradições do bloco governista, apontar desgaste administrativo e tentar transformar a eleição em julgamento de prioridades. Para isso, terá de encontrar temas concretos: saúde, infraestrutura, custo de vida, interior, serviços públicos e presença do Estado onde a propaganda não chega.

Mas a oposição ainda não controla a agenda. Quem controla, por enquanto, é o grupo governista.

Riedel tem a vantagem da máquina e da aprovação. Azambuja tem a vantagem da estrutura partidária. O PL tem a vantagem do crescimento. A União Progressista tem a vantagem da federação. Tereza Cristina tem a vantagem da autoridade nacional. Tudo isso junto forma um bloco robusto.

A pergunta é se esse bloco será uma engrenagem ou um congestionamento.

A eleição de 2026 em Mato Grosso do Sul não deve ser lida apenas como uma disputa entre governo e oposição. Ela é também uma eleição sobre sucessão de comando dentro da própria direita. O velho centro tucano perdeu centralidade. O PL avançou. O PP abriga o governador. A federação reorganiza forças. E o Senado virou o espaço onde as ambições mais sensíveis vão se enfrentar.

Riedel larga na frente, mas a liderança dele será testada pela capacidade de manter a tropa alinhada. A direita tem hoje o favoritismo. Mas favoritismo não é blindagem. É responsabilidade maior sobre os próprios erros.

No atual cenário, a oposição precisa crescer para ameaçar. Já a direita precisa evitar algo mais perigoso: tropeçar nos próprios aliados.

A eleição em Mato Grosso do Sul começa com um recado claro. O grupo governista é forte demais para ser ignorado. Mas talvez já esteja grande demais para não se desafiar por dentro.

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