Quando o prefeito de Cuiabá, Abilio Brunini, decidiu dizer que a festa dos 307 anos da capital, no Parque das Águas, não teria camarotes, ele fez mais do que escolher o formato de um evento. Tocou num ponto que o poder público costuma fingir que não vê: festa bancada com dinheiro público não deveria ter área de privilégio. Segundo a cobertura local, Abilio argumentou que, por ser um evento popular e gratuito, não fazia sentido separar autoridades ou pessoas com maior poder aquisitivo do público comum. A única exceção mencionada foi a reserva de espaço apropriado para pessoas com mobilidade reduzida.
Essa distinção é decisiva. Uma coisa é acessibilidade. Outra, muito diferente, é privilégio. Espaço para pessoas com deficiência não é regalia. É correção mínima de desigualdade concreta. Camarote para autoridade, convidado especial, patrocinador bem relacionado ou elite local é outra história. Aí já não se fala em inclusão. Fala-se em separação. Em hierarquia. Em uma mensagem política antiga e feia: a de que o povo financia a festa, mas uma parte “melhor” da plateia continua assistindo de cima.
É exatamente esse costume que deveria acabar.
Porque, no fundo, o problema não é arquitetônico. É moral e político. Quando a prefeitura, o governo ou qualquer estrutura pública promove um grande evento com verba pública ou estrutura pública e, ao mesmo tempo, cria áreas de exceção para os de sempre, ela não está apenas organizando melhor o espaço. Está institucionalizando distância. Está dizendo, sem precisar verbalizar, que mesmo na celebração coletiva ainda há quem pertença mais do que os outros.
É um péssimo sinal.
Pior ainda porque isso costuma vir embalado em desculpas previsíveis. Dizem que o camarote é necessário para autoridades. Dizem que é importante para patrocinadores. Dizem que é preciso acomodar convidados. Dizem até que isso ajuda na organização. Quase nunca dizem a verdade central: camarote em festa pública virou um mecanismo confortável de distinção social financiada, tolerada ou protegida pelo poder.
E aí a conta fecha do pior jeito.
O cidadão comum enfrenta fila, aperto, calor, dificuldade de visão e acesso limitado. Já quem tem cargo, trânsito político, amizade certa ou crachá mais importante ganha área isolada, melhor ângulo, mais conforto e distância da massa que pagou a conta inteira ou parte relevante dela. Não é só desigualdade. É pedagogia de desigualdade. É o Estado ensinando, mais uma vez, que até na festa existe casta.
Por isso a decisão de Cuiabá importa. Não porque seja revolucionária demais, mas porque expõe o tamanho da anomalia que se normalizou em tantos lugares. O que deveria ser óbvio passou a parecer gesto de ousadia. E isso, por si só, já é revelador.
Se a festa é pública, o espaço principal deve ser público.
Se o dinheiro é público, o tratamento tem de ser público.
Se a celebração é da cidade, ela não pode reproduzir o mesmo mapa de privilégios que a política tantas vezes alimenta no cotidiano.
Claro que isso não elimina a necessidade de áreas técnicas, de operação, de imprensa, de acessibilidade e de segurança institucional mínima. Mas tudo isso é diferente de transformar celebração popular em vitrine de distinção. O ponto não é proibir organização. O ponto é impedir que a organização vire pretexto para privilégio.
E aqui entra a parte que quase ninguém gosta de dizer com clareza: isso deveria virar regra.
Não como gesto de marketing de um prefeito ou de outro. Não como decisão isolada que depende do humor do governante da vez. Mas como princípio administrativo e político de qualquer evento sustentado pelo poder público. Sem camarote VIP, sem espaço de exceção para autoridades, sem puxadinho de elite. O que for necessário para acessibilidade, operação, imprensa e segurança, sim. O que for pensado para separar “os de cima” do resto, não.
Porque festa pública não pode funcionar como retrato em miniatura da desigualdade brasileira.
Na prática, adotar essa regra teria um efeito maior do que parece. Obriga o poder público a conviver com o próprio povo no espaço que ele mesmo organizou. Reduz a cultura de blindagem simbólica. Tira da festa a imagem de evento popular com tratamento aristocrático nos bastidores. E produz uma mensagem poderosa, justamente por ser simples: aqui ninguém vale mais porque ocupa cargo, porque tem acesso ou porque circula no entorno do poder.
Isso melhora até a política.
Melhora porque aproxima. Melhora porque tira a autoridade do conforto cênico e a coloca no ambiente real da cidade. Melhora porque reduz a encenação do “gestor popular” que posa perto do povo, mas assiste ao show no espaço reservado. E melhora, sobretudo, porque devolve coerência à ideia de que o espaço público deve ser, de fato, público.
No Brasil, o problema nunca foi só a falta de dinheiro. Foi também o uso simbólico que se faz dele. E poucos símbolos são tão diretos quanto este: uma festa de todos com área melhor para alguns.
Se Cuiabá decidiu romper com isso, ótimo. Mas o mais importante não é elogiar Cuiabá. É entender que esse padrão deveria se espalhar.
Dinheiro público.
Festa pública.
Sem camarote.
Sem privilégio.
O resto é só maquiagem em cima de uma desigualdade que já cansou de ser tratada como normal.
