Estado líder em crescimento nacional pode transformar crise em oportunidade, enquanto setor produtivo busca alternativas para manter trajetória de expansão
12 de julho de 2025
A decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de impor uma tarifa de 50% sobre todos os produtos brasileiros a partir de 1º de agosto representa um dos maiores desafios comerciais enfrentados pelo Brasil na última década. No entanto, Mato Grosso do Sul, que lidera as projeções de crescimento econômico nacional para 2025, encontra-se em posição privilegiada para enfrentar essa tempestade comercial, graças à sua economia diversificada e baixa dependência do mercado americano.Com apenas 5,97% de suas exportações destinadas aos Estados Unidos, o estado sul-mato-grossense demonstra uma resiliência econômica que contrasta com a vulnerabilidade de outras unidades federativas mais dependentes do mercado norte-americano.
Enquanto São Paulo, responsável por quase um terço das exportações brasileiras para os EUA, enfrenta o maior impacto potencial, Mato Grosso do Sul pode transformar essa crise em uma oportunidade de consolidação de novos mercados e fortalecimento de parcerias já estabelecidas.A medida anunciada por Trump em carta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na quarta-feira (9) estabelece uma sobretaxa que tornará inviável a compra de diversos produtos brasileiros por empresas americanas, elevando drasticamente os custos de importação.
Para Mato Grosso do Sul, que exportou US$ 315,4 milhões para os Estados Unidos no primeiro semestre de 2025, o impacto direto representa uma parcela relativamente pequena de sua robusta economia exportadora, que movimentou US$ 5,28 bilhões no mesmo período.A Blindagem Econômica de Mato Grosso do SulA força da economia sul-mato-grossense reside em sua estratégia de diversificação de mercados, construída ao longo dos últimos anos através de políticas de desenvolvimento sustentável e equilíbrio fiscal. O estado, que deve crescer 4,2% em 2025 segundo projeções do Banco do Brasil, possui uma economia blindada contra choques externos graças à sua baixa dependência de um único mercado.
A China, principal parceiro comercial de Mato Grosso do Sul, absorve 47,05% das exportações estaduais, representando US$ 2,484 bilhões no primeiro semestre de 2025. Essa parceria sólida com o gigante asiático oferece uma base estável para a economia local, enquanto os Estados Unidos ocupam apenas a segunda posição no ranking de destinos das exportações sul-mato-grossenses.
Daniel Massen Frainer, economista e professor da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS), avalia que a medida de Trump pode até beneficiar temporariamente o estado. “Os importadores norte-americanos antecipariam as compras do Brasil, especialmente de estados como Mato Grosso do Sul. Com essa antecipação, ao invés de comprarem o previsto para 30 dias, passariam a comprar o suficiente para 90 dias”, explica o especialista.
Essa corrida por estoques poderia provocar um aumento expressivo nas exportações brasileiras, inclusive com a possibilidade de triplicar a demanda por certos produtos. O economista lembra que situação semelhante já havia ocorrido anteriormente, quando Trump anunciou uma tarifa de 10% sobre a carne, resultando em uma antecipação imediata das compras e crescimento significativo das exportações.
Setores Estratégicos Sob Pressão
Apesar da posição relativamente confortável de Mato Grosso do Sul no cenário nacional, alguns setores estratégicos da economia estadual enfrentarão pressões diretas das novas tarifas. A carne bovina, que representa 32,2% das exportações do estado para os Estados Unidos, soma US$ 215,8 milhões e constitui um dos pilares da economia local.
O setor frigorífico já demonstra sinais de cautela. Marcelo Bertoni, presidente da Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul (Famasul), destaca que os frigoríficos já saíram das compras após o anúncio de Trump. “Recebemos uma taxação infundada, que vai trazer pra nós, provavelmente, alguns problemas. Principalmente hoje, os frigoríficos, por exemplo, já saiu das compras, então sabemos como vai abrir o mercado, porque estão fora da compra”, afirma Bertoni.
A expectativa é de que o mercado reabra na próxima semana com preços bem abaixo do que estava sendo praticado, criando um cenário de incerteza para produtores e processadores de carne bovina. No primeiro semestre de 2025, as carnes bovinas desossadas e congeladas representaram 45,2% do total exportado por Mato Grosso do Sul para os Estados Unidos, somando mais de US$ 142 milhões.
O setor de celulose, segundo maior produto de exportação do estado para os EUA, também demonstra preocupação. Com US$ 213,4 milhões exportados no primeiro semestre, representando 31,9% da pauta exportadora para o mercado americano, a indústria de celulose teme pela perda de competitividade. As exportações de pasta química de madeira para os Estados Unidos ultrapassaram US$ 1,7 bilhão entre janeiro e junho, registrando alta de 65,2% em relação ao mesmo período de 2024.
O Contexto Político por Trás da Decisão
A análise do contexto político revela que a decisão de Trump possui motivações que transcendem questões puramente econômicas. Especialistas apontam que a medida está diretamente relacionada ao processo contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, criando um cenário de tensão diplomática que afeta as relações comerciais entre os dois países.Frainer destaca que os Estados Unidos têm, nos últimos 10 anos, um saldo comercial positivo com o Brasil, ou seja, exportam mais para o Brasil do que importam. “Isso, por si só, já desmonta a narrativa de desequilíbrio comercial que justificaria a imposição de tarifas. Os dados confirmam que não há, de fato, um déficit relevante. Portanto, não se trata de uma decisão com base em fundamentos econômicos”, analisa o economista.
O histórico do presidente americano também sugere que a medida pode não se sustentar no longo prazo. Trump possui um padrão de comportamento caracterizado por anúncios de tarifas seguidos de recuos após períodos de tensão, geralmente em torno de 90 dias. Esse comportamento errático e imprevisível torna difícil acreditar que tais medidas se sustentem, criando apenas instabilidade no mercado.
Estratégias de Adaptação e Novos Horizontes
Diante do cenário de incerteza, o setor produtivo de Mato Grosso do Sul já articula estratégias para minimizar os impactos e aproveitar oportunidades emergentes. O redirecionamento de exportações para outros mercados surge como a principal alternativa, com países como Japão, China e Chile sendo apontados como destinos promissores para absorver parte da produção anteriormente destinada aos Estados Unidos.
Aldo Barigosse, analista de comércio exterior, explica que a perda de competitividade é um dos principais impactos da nova taxação, podendo provocar efeitos em cadeia na economia estadual. “Diante do aumento tarifário, parte da carne bovina deverá ser redirecionada a outros mercados, o que pode aumentar a oferta no Brasil e no exterior”, analisa.
O analista alerta para possíveis impactos na mão de obra e nos investimentos, caso as indústrias comecem a perder mercado. “Podemos ter impacto na mão de obra dessas indústrias e menor investimento, se elas começarem a perder mercado. São reflexos negativos que tendem a atingir o setor produtivo”, destaca Barigosse.
No entanto, a diversificação de mercados pode trazer benefícios inesperados. A possível redução de preços de carne e café no mercado interno brasileiro, decorrente do redirecionamento da produção, pode beneficiar consumidores locais e fortalecer o mercado doméstico.
A Força da Economia Diversificada
A robustez da economia de Mato Grosso do Sul reside em sua capacidade de adaptação e diversificação. O estado, que lidera as projeções de crescimento nacional para 2025, construiu uma base econômica sólida que vai muito além da dependência de um único mercado ou setor.
Desde 2015, Mato Grosso do Sul atraiu mais de R$ 125 bilhões em investimentos, com R$ 33 bilhões projetados apenas para 2024. Essa capacidade de atração de investimentos reflete a confiança do mercado na economia estadual e sua capacidade de gerar retornos consistentes.
A inauguração da maior fábrica de celulose em linha única do mundo, construída pela Suzano em Ribas do Rio Pardo, exemplifica a força industrial do estado. Além da expansão da celulose e biocombustíveis prevista para 2025, a produção de laranja e fábricas de suco devem reforçar a economia regional, criando novas oportunidades de exportação e geração de empregos.O agronegócio, motor da economia estadual, deve crescer 13,5% em 2025, recuperando-se do recuo de 17,6% registrado em 2024. Essa recuperação recorde reflete o impacto positivo de uma supersafra e a capacidade de adaptação do setor às condições de mercado.
Impactos na População e Mercado de Trabalho
Para a população de Mato Grosso do Sul, os impactos das tarifas de Trump se manifestarão de forma indireta, mas com potencial para gerar tanto desafios quanto oportunidades. O estado, que ocupa o 5º lugar nacional em crescimento percentual de empregos formais, com alta de 3,12% em relação ao estoque de dezembro de 2024, possui uma base sólida para enfrentar eventuais turbulências.
A geração de empregos no agronegócio, principal setor da economia estadual, pode ser afetada temporariamente caso as empresas exportadoras reduzam investimentos. No entanto, a diversificação de mercados e a busca por novos destinos para a produção podem criar oportunidades em outros setores, como logística, processamento e serviços especializados.
Bruna Mendes Dias, assessora de Economia e Estatística da Semadesc, analisa o cenário com cautela e lembra que a taxação de Trump retoma uma postura semelhante à adotada em seu primeiro mandato, em 2018, quando impôs tarifas sobre o aço e o alumínio. “No caso atual, é preciso aguardar os desdobramentos, mas o impacto imediato pode recair sobre setores estratégicos que compõem a pauta de exportações de Mato Grosso do Sul para os EUA”, avalia.
A especialista acredita que, num primeiro momento, os efeitos da medida se concentrariam na indústria norte-americana, que teria de acessar matérias-primas brasileiras com preços mais altos, o que poderia reduzir sua competitividade. “Historicamente, situações como essa acabam sendo ajustadas por meio de negociações diplomáticas e comerciais, como também ocorreu no passado. Portanto, no médio e longo prazo haverá espaço para acordos e reequilíbrios, de forma a evitar penalizações severas para ambos os lados”, projeta Dias.
Ações do Secretário Jaime Verruck
O secretário da Semadesc, Jaime Verruck, tem destacado em suas manifestações públicas que Mato Grosso do Sul se destaca não apenas pelos números econômicos, mas também por sua política de desenvolvimento fortemente planejada. “Mato Grosso do Sul destaca-se não apenas pelos números, mas também por sua política de desenvolvimento fortemente planejada, baseada no equilíbrio fiscal, na sustentabilidade no agronegócio e alinhada às diretrizes da nova indústria brasileira”, afirmou Verruck.
Esses pilares têm consolidado o estado como uma referência no cenário econômico nacional, criando uma base sólida para enfrentar desafios externos como as tarifas impostas por Trump. A estratégia de desenvolvimento sustentável adotada pelo governo estadual tem atraído investimentos internacionais e fortalecido a competitividade da economia local.
Perspectivas e Cenários Futuros
A análise dos cenários futuros para Mato Grosso do Sul diante das tarifas de Trump revela um quadro complexo, mas com predominância de fatores positivos. O estado possui características únicas que o colocam em posição privilegiada para enfrentar essa crise comercial e até mesmo sair fortalecido dela.
O primeiro cenário, considerado mais provável pelos especialistas, envolve um recuo de Trump da medida em até 90 dias, seguindo seu padrão histórico de comportamento. Nesse caso, Mato Grosso do Sul se beneficiaria da antecipação de compras pelos importadores americanos, que buscariam formar estoques antes da implementação das tarifas.
O segundo cenário, de manutenção das tarifas, exigiria uma adaptação mais profunda da economia estadual, mas ainda assim com impactos limitados devido à baixa dependência do mercado americano. A consolidação de parcerias com outros países e o fortalecimento do mercado interno brasileiro poderiam compensar as perdas no mercado americano.Em ambos os cenários, a diversificação econômica de Mato Grosso do Sul emerge como seu principal ativo. A combinação de agronegócio forte, indústria em expansão e setor de serviços em crescimento cria uma base econômica resiliente capaz de absorver choques externos e manter sua trajetória de crescimento.
Conclusão: Resiliência em Tempos de IncertezaAs tarifas de 50% anunciadas por Donald Trump representam, sem dúvida, um desafio significativo para o comércio exterior brasileiro. No entanto, Mato Grosso do Sul demonstra que uma economia bem estruturada, diversificada e com políticas de desenvolvimento consistentes pode não apenas resistir a choques externos, mas também transformá-los em oportunidades de crescimento.A baixa dependência do mercado americano, a forte parceria com a China, a economia em crescimento acelerado e a capacidade de atração de investimentos colocam o estado em posição privilegiada para navegar por essa tempestade comercial. Mais do que isso, a crise pode acelerar processos já em andamento, como a diversificação de mercados e o fortalecimento de parcerias estratégicas.Para a população sul-mato-grossense, o momento exige serenidade e confiança na capacidade de adaptação da economia local. Os números demonstram que o estado possui fundamentos sólidos para manter sua trajetória de crescimento, mesmo diante de adversidades externas. A liderança nacional em projeções de crescimento para 2025 não é fruto do acaso, mas resultado de políticas consistentes e uma economia diversificada e resiliente.
O tarifaço de Trump pode ser visto como um teste de resistência para a economia brasileira. Mato Grosso do Sul, com sua economia blindada e estratégias bem definidas, está preparado para passar nesse teste e emergir ainda mais forte, consolidando sua posição como um dos estados mais prósperos e dinâmicos do país.
