Relatório da CPI das Bets aponta que influenciadora usou contas simuladas, enganou seguidores e lucrou com prejuízos em casas de apostas online. Cláusula contratual previa ganhos sobre perdas de fãs.
BRASÍLIA —
A influenciadora digital Virgínia Fonseca, uma das figuras mais populares da internet brasileira, pode ser formalmente indiciada pela CPI das Apostas Esportivas por estelionato e publicidade enganosa, conforme relatório final apresentado no Senado no dia 10 de junho. A relatora da Comissão Parlamentar de Inquérito, senadora Soraya Thronicke (Podemos-MS), aponta que Virgínia teria promovido jogos de azar usando artifícios fraudulentos, ludibriando seus seguidores com simulações de ganhos inexistentes.
A acusação é grave: de acordo com o documento oficial da CPI, Virgínia teria utilizado contas de demonstração (“demo”) para fingir apostas bem-sucedidas em plataformas como o site Esportes da Sorte, parceiro comercial da influenciadora. Ao exibir ganhos irreais em vídeos e stories nas redes sociais, ela teria induzido seguidores, principalmente jovens, a se registrarem e apostarem em um ambiente manipulado.
“É a velha ilusão do enriquecimento rápido, disfarçada de marketing de influência. O dano é social, financeiro e psicológico”, afirmou a senadora Soraya durante a leitura do relatório.
Cláusula polêmica: mais lucros, quanto mais o fã perdia
O documento traz um ponto que causou indignação pública e no Senado: uma cláusula contratual obtida pela CPI revela que Virgínia teria direito a 30% do valor perdido por apostadores que se cadastrassem com seu link. Em outras palavras, a remuneração da influenciadora estaria diretamente ligada ao prejuízo do seguidor.
“É o parasitismo da dor alheia. Uma inversão completa de valores morais e comerciais”, disparou a relatora.
Essa cláusula, apelidada pelos senadores de “cláusula da desgraça alheia”, também apareceu em contratos de outras influenciadoras, como Deolane Bezerra, igualmente indiciada. A CPI considera esse modelo abusivo, antiético e, possivelmente, criminoso.
Vídeos sob suspeita: ganhos encenados e manipulação digital
O relatório revela que os conteúdos promovidos por Virgínia não condiziam com a experiência real dos usuários. As contas utilizadas nos vídeos não tinham vínculo com apostas reais, mas sim com versões simuladas oferecidas pelas plataformas às celebridades contratadas. Essa diferença nunca foi informada aos seguidores.
Além disso, técnicos que prestaram apoio à CPI demonstraram que os odds (valores de retorno) exibidos nos vídeos eram mais vantajosos do que os praticados nos sites acessados pelo público.
“As imagens mostram claramente um cenário irreal. Ela apostava sem riscos e exibia lucros que ninguém conseguiria alcançar. Isso é publicidade enganosa com dolo”, consta no parecer da CPI.
Prejuízo real: seguidores lesados e danos coletivos
Segundo dados obtidos pela CPI, mais de R$ 230 milhões foram movimentados em plataformas de apostas através de links de influenciadores digitais. A comissão estima que milhares de jovens brasileiros tenham perdido valores significativos, motivados por falsas promessas de lucro fáceis divulgadas em redes sociais.
Associações de defesa do consumidor já registram denúncias relacionadas a perdas financeiras ligadas a anúncios de influenciadores. Alguns casos envolvem adolescentes que utilizaram cartões de crédito dos pais sem autorização.
Crimes apontados
A CPI responsabiliza Virgínia Fonseca com base nos seguintes crimes:
- Estelionato (Art. 171 do Código Penal): Obter vantagem ilícita em prejuízo alheio, induzindo alguém ao erro. Pena: 1 a 5 anos de prisão.
- Publicidade enganosa (Art. 37 do Código de Defesa do Consumidor): Veicular anúncios com informações falsas ou omissas. Pena: multa e até 2 anos de reclusão.
Além da responsabilização penal, a CPI recomenda o encaminhamento para ações civis públicas de reparação e propõe o bloqueio de bens até o esclarecimento completo dos fatos.
Próximos passos: MPF pode transformar indiciamento em denúncia criminal
O relatório da CPI será votado oficialmente no colegiado no dia 12 de junho. Se aprovado, será encaminhado ao Ministério Público Federal, que analisará o caso e poderá apresentar denúncia formal à Justiça.
Caso isso ocorra, Virgínia poderá enfrentar processo criminal e civil, além de sanções administrativas.
A CPI também propôs 18 projetos de lei para regulamentar o setor de apostas, entre eles:
- Criminalização da publicidade enganosa em jogos de azar;
- Proibição de marketing de apostas com linguagem infantil;
- Criação de um cadastro nacional de apostadores;
- Exigência de certificações para influenciadores que promovem jogos online.
Defesa de Virgínia contesta CPI
Em nota enviada à imprensa, o advogado Michel Saliba, representante legal de Virgínia Fonseca, afirmou que a influenciadora “jamais teve a intenção de enganar seus seguidores” e que a cláusula contratual que prevê ganhos com perdas não chegou a ser executada.
“Ela agiu com base em contratos legais e práticas adotadas por diversas outras figuras públicas. Não há crime, tampouco dolo”, afirmou a defesa.
Influência sob escrutínio
O caso de Virgínia Fonseca deve marcar um divisor de águas no debate sobre o papel e os limites da influência digital. A fronteira entre marketing e manipulação está cada vez mais tênue — e agora, judicializada.
A CPI das Bets expõe, com rigor técnico e político, que a nova vitrine do crime não está nos porões da internet, mas nos feeds dos influenciadores mais seguidos do país.
(Por Redação Notas e Notícias MS)
Atualizado em 11/06/2025

