Pesquisa espontânea coloca três mulheres nos maiores índices individuais da corrida pela Câmara dos Deputados; ex-deputada, deputada estadual e atual parlamentar federal representam trajetórias e campos políticos distintos
A fotografia mais simbólica da corrida pela Câmara dos Deputados em Mato Grosso do Sul, neste início de campanha, tem rosto feminino.
Rose Modesto, Mara Caseiro e Camila Jara aparecem com os três maiores percentuais individuais na pesquisa espontânea mais recente divulgada pelo Instituto Ranking Brasil Inteligência para deputado federal no Estado.
Rose registra 3,4%.
Mara aparece com 2,3%.
Camila vem logo depois, com 2,2%.
Na sequência aparecem Rodolfo Nogueira, com 2,1%, Marcos Pollon, com 1,8%, Geraldo Resende, com 1,6%, Marquinhos Trad, com 1,5%, Beto Pereira, com 1,4%, Luiz Ovando, com 1,3%, Professor Juari, com 1,2%, entre outros nomes. Os percentuais foram divulgados pelo próprio instituto, separados por partido e federação. A leitura conjunta mostra que os três maiores índices nominais pertencem a mulheres.
Não se trata de um ranking produzido por esta reportagem, nem de uma previsão de quem será eleito. Os números são de um levantamento de terceiro e representam uma fotografia da lembrança espontânea do eleitor no período pesquisado.
Ainda assim, o dado é politicamente relevante.
As três primeiras posições nominais não são ocupadas apenas por mulheres.
São mulheres de três grupos políticos diferentes, com histórias construídas em ambientes também bastante distintos.
Rose está no União Brasil e integra a Federação União Progressista.
Mara deixou o PSDB e atualmente está no PL. A Assembleia Legislativa já a registra oficialmente como integrante da bancada liberal.
Camila permanece no PT, dentro da Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PV e PCdoB.
O que as une, neste momento, é o eleitor.



Rose, Mara e Camila concentram os maiores índices
A pesquisa foi realizada entre 7 e 12 de agosto, com 2 mil entrevistados em 30 municípios de Mato Grosso do Sul. A margem de erro informada é de 2,2 pontos percentuais, para mais ou para menos, com intervalo de confiança de 95%. O levantamento está registrado na Justiça Eleitoral sob os números MS-09590/2026 e BR-03493/2026.
A pergunta foi espontânea.
Isso significa que o entrevistador não apresentou uma lista de candidatos.
O eleitor precisou lembrar e dizer um nome.
Nesse tipo de levantamento, o percentual costuma ser muito menor do que nas pesquisas estimuladas, sobretudo para cargos proporcionais.
E há outro dado importante: 39% não souberam ou não responderam em quem votar para deputado federal e 29,45% apontaram branco ou nulo.
Portanto, a disputa está longe de estar definida.
As diferenças entre Rose, Mara e Camila também não devem ser interpretadas isoladamente como vantagem estatística consolidada, especialmente diante da margem de erro.
O aspecto mais significativo é outro.
Os três maiores percentuais nominais são femininos.
Um dado que chama atenção em uma bancada ainda masculina
Mato Grosso do Sul possui oito cadeiras na Câmara dos Deputados.
Nas eleições de 2022, apenas uma mulher foi eleita para representar o Estado em Brasília: Camila Jara. A própria Câmara registra que ela foi a única mulher eleita para a bancada sul-mato-grossense naquele pleito.
O cenário local reflete uma dificuldade nacional.
Em 2022, o Brasil elegeu 91 deputadas federais para as 513 cadeiras da Câmara. Mesmo com crescimento em relação à eleição anterior, as mulheres representaram 17,7% dos parlamentares eleitos.
Por isso, o aparecimento de três mulheres nos maiores percentuais da pesquisa de Mato Grosso do Sul tem um significado que ultrapassa a disputa individual.
Não significa que três serão eleitas.
Não significa sequer que a ordem atual será mantida.
Mas mostra que, no início da campanha, mulheres estão entre os nomes com maior lembrança espontânea do eleitorado para representar Mato Grosso do Sul em Brasília.
E cada uma chegou até aqui por um caminho diferente.
Rose Modesto: da sala de aula ao Congresso e à gestão regional
A maior porcentagem individual registrada no levantamento é de Rose Modesto, com 3,4%.
Natural de Fátima do Sul, Rosiane Modesto de Oliveira é professora e musicista. Sua trajetória política começou em Campo Grande, onde foi eleita vereadora nas eleições de 2008 e novamente em 2012.
O salto para a política estadual veio em 2014, quando integrou a chapa de Reinaldo Azambuja e foi eleita vice-governadora de Mato Grosso do Sul.
Em 2015, também exerceu a função de secretária estadual de Direitos Humanos, Assistência Social e Trabalho.
Quatro anos depois, mudou novamente de dimensão eleitoral.
Em 2018, Rose foi eleita deputada federal e terminou aquela eleição como a candidata mais votada para a Câmara dos Deputados em Mato Grosso do Sul, com mais de 120 mil votos, segundo o perfil institucional publicado pela Sudeco.
No Congresso, atuou em áreas como Educação, Agricultura, Direitos da Mulher e Fundeb. Em 2021, chegou à 3ª Secretaria da Mesa Diretora da Câmara, tornando-se a segunda mulher a ocupar aquela função.
Depois do mandato parlamentar, Rose voltou ao Executivo federal.
Em maio de 2023, tornou-se a primeira mulher a assumir a Superintendência do Desenvolvimento do Centro-Oeste, a Sudeco, órgão responsável por políticas de desenvolvimento regional e pela gestão de instrumentos como o FCO e o FDCO.
Ela permaneceu no comando da autarquia até 2024. Em junho daquele ano, Luciana de Sousa Barros tomou posse como nova superintendente, sendo apresentada oficialmente pelo governo federal como a segunda mulher a dirigir a Sudeco, depois de Rose.
Hoje, Rose preside o diretório estadual do União Brasil em Mato Grosso do Sul.
A convenção da Federação União Progressista, realizada em 1º de agosto, incluiu seu nome na chapa proporcional para a Câmara dos Deputados.
É uma trajetória que atravessa Legislativo municipal, Executivo estadual, Câmara Federal e administração pública federal.
Agora, Rose tenta retornar ao Congresso.
Mara Caseiro: do consultório à prefeitura e da prefeitura à Assembleia
A segunda mulher no grupo dos maiores percentuais é Mara Caseiro, com 2,3% na pesquisa espontânea.
Sua origem política é bastante diferente da de Rose.
Mara é cirurgiã-dentista.
Formou-se em Odontologia pela Universidade do Oeste Paulista, a Unoeste, em Presidente Prudente, em 1986. Antes de consolidar a carreira política, atuou profissionalmente na área da saúde.
Sua base política foi construída principalmente em Eldorado, no Cone Sul de Mato Grosso do Sul.
Antes de chegar à Assembleia Legislativa, Mara passou pela Câmara Municipal e comandou a Prefeitura de Eldorado por dois mandatos.
A experiência municipal acabou se transformando em plataforma estadual.
Mara foi eleita deputada estadual em 2010 e novamente em 2014.
Ao longo da passagem pela Assembleia, ocupou funções na Mesa Diretora e desenvolveu atuação especialmente ligada aos municípios, saúde, políticas sociais e pautas relacionadas às mulheres.
No biênio 2025-2026, foi reconduzida à 3ª Vice-Presidência da Assembleia Legislativa, em votação unânime dos 24 deputados que participaram da escolha da Mesa.
Sua produção legislativa também inclui iniciativas diretamente relacionadas à presença feminina na sociedade.
Uma lei de sua autoria incluiu a história das mulheres como conteúdo transversal no currículo das escolas estaduais. Outra instituiu o Prêmio Meninas Olímpicas.
Em 2026, já filiada ao PL, Mara também participou da construção da Procuradoria da Mulher na Assembleia e apresentou proposta de prevenção aos impactos das apostas on-line entre crianças e adolescentes.
A mudança partidária também alterou seu próximo desafio eleitoral.
Na convenção estadual realizada em 1º de agosto, o PL homologou Mara Caseiro para disputar uma cadeira na Câmara dos Deputados. O nome de urna aprovado foi Mara Caseiro, número 2200.
Depois de construir carreira no município e consolidar sucessivos mandatos estaduais, Mara agora tenta fazer a transição para Brasília.
Camila Jara: da Câmara Municipal ao Congresso em poucos anos
A terceira mulher no grupo é justamente quem já ocupa uma das oito cadeiras de Mato Grosso do Sul na Câmara Federal.
Camila Jara aparece com 2,2% na pesquisa espontânea do Ranking.
Natural de Campo Grande, Camila nasceu em 1995 e é formada em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, a UFMS.
Sua ascensão eleitoral foi rápida.
Antes de chegar a Brasília, foi vereadora em Campo Grande.
Nas eleições municipais de 2020, tornou-se a única mulher entre os 29 vereadores eleitos para a Câmara Municipal. Segundo seu perfil oficial na Câmara dos Deputados, foi também a candidata mais votada para vereador naquele pleito e a mais jovem entre os eleitos.
Dois anos depois, disputou uma cadeira federal.
Foi eleita em 2022 e iniciou o mandato na Câmara dos Deputados em 1º de fevereiro de 2023.
Segundo a Secretaria da Mulher da própria Câmara, Camila foi a única mulher eleita para a bancada federal de Mato Grosso do Sul em 2022, além de ter sido a deputada mais jovem do PT naquela eleição e a mais jovem da história de Mato Grosso do Sul a chegar à Câmara Federal.
No mandato atual, integra a Secretaria da Mulher e passou por comissões como Finanças e Tributação, Meio Ambiente, Comunicação e Direitos Humanos. Em 2026, aparece como titular da Comissão de Finanças e Tributação e da comissão especial que analisa o projeto de regulamentação da Inteligência Artificial.
A convenção da Federação Brasil da Esperança homologou novamente seu nome para deputado federal. Camila concorre pelo PT com o número 1367.
Ela chega, portanto, à eleição de 2026 tentando renovar o mandato conquistado quatro anos antes.
Três mulheres, três partidos, três histórias
Talvez seja esse o ponto mais interessante do levantamento.
Rose Modesto, Mara Caseiro e Camila Jara não representam uma mesma corrente política.
Não têm a mesma origem partidária.
Não chegaram à política pela mesma porta.
Rose construiu uma trajetória que passou pela educação, Câmara Municipal, Vice-Governadoria, Câmara dos Deputados e gestão de desenvolvimento regional.
Mara saiu da Odontologia, passou pela política municipal de Eldorado, governou uma cidade do interior e consolidou carreira na Assembleia Legislativa.
Camila veio dos movimentos estudantis e sociais, chegou primeiro à Câmara Municipal e, em apenas dois anos, avançou para o Congresso Nacional. Sua formação em Ciências Sociais e a atuação em movimentos estudantis e feministas constam de seu perfil institucional na Câmara.
Hoje elas estão no União Brasil, PL e PT.
Direita, centro e esquerda estarão disputando votos com candidaturas femininas competitivas dentro de suas próprias chapas.
O dado da pesquisa não mostra uniformidade ideológica.
Mostra presença política feminina atravessando diferentes campos partidários.
Pesquisa não significa eleição garantida
Há uma diferença fundamental entre aparecer bem em pesquisa para deputado e conquistar uma cadeira.
Deputados federais são eleitos pelo sistema proporcional.
Na prática, a votação de cada candidata ou candidato é importante, mas a quantidade de cadeiras conquistadas depende também do total de votos recebido pelo partido ou pela federação, dos quocientes eleitoral e partidário e da distribuição das vagas restantes.
Por isso, Rose ter 3,4%, Mara 2,3% e Camila 2,2% não permite afirmar que as três serão eleitas.
A pesquisa também não mede diretamente quantas vagas cada chapa conseguirá conquistar.
Ela revela outra coisa.
Lembrança.
E, na pergunta em que nenhum nome foi apresentado ao eleitor, as três mulheres conseguiram aparecer antes de todos os demais nomes individualmente citados no levantamento.
De exceção em 2022 a protagonismo no início de 2026
Em 2022, Mato Grosso do Sul mandou apenas uma mulher para a Câmara Federal.
Quatro anos depois, a primeira fotografia da reta inicial da campanha apresenta uma situação diferente.
Uma ex-deputada federal querendo voltar.
Uma deputada estadual tentando chegar.
E uma deputada federal buscando permanecer.
Rose.
Mara.
Camila.
Partidos diferentes.
Gerações diferentes.
Experiências diferentes.
Mas, neste momento da campanha, unidas por um dado difícil de ignorar:
os três maiores percentuais individuais da pesquisa para deputado federal em Mato Grosso do Sul são de mulheres.
Não é resultado de eleição.
Não é garantia de mandato.
Mas é um sinal importante sobre quem já conseguiu ocupar espaço na memória do eleitor antes de a campanha alcançar sua fase mais intensa.
E, independentemente de qual delas avançará até outubro, existe uma mudança que a pesquisa já registra.
Na corrida pelas cadeiras de Mato Grosso do Sul em Brasília, as mulheres não aparecem apenas para cumprir tabela partidária. Elas estão entre os nomes mais lembrados pelo eleitorado.
Data de corte da apuração: 18 de agosto de 2026.
