Encontro em Campo Grande pode homologar Reinaldo Azambuja e Capitão Contar ao Senado, enquanto Marcos Pollon corre o risco de sair da disputa majoritária mesmo após apoio de Bolsonaro
A convenção estadual do PL marcada para 1º de agosto, em Campo Grande, virou mais do que uma formalidade partidária.
Virou o ponto de corte da direita em Mato Grosso do Sul.
O encontro deve homologar candidaturas, alianças, chapas proporcionais e suplências para as eleições de 2026. Mas o centro real da disputa está no Senado: quem fica com as duas vagas do PL e quem será obrigado a descer do palanque majoritário.
Pelo desenho que ganhou força nos últimos dias, o partido caminha para oficializar Reinaldo Azambuja e Capitão Contar como nomes ao Senado. Se isso se confirmar, o deputado federal Marcos Pollon ficará fora da chapa principal, apesar de ter sido citado como nome apoiado por Jair Bolsonaro para a disputa em Mato Grosso do Sul.
A convenção será realizada no Comitê Central do PL, na Rua Flamboyant, nº 681, no Bairro Cidade Jardim, em Campo Grande. O convite divulgado pelo partido informa horário das 8h às 12h.
Na prática, será o primeiro grande teste público da liderança de Reinaldo dentro do PL estadual.
A foto do convite diz muito
O material de convocação da convenção traz Reinaldo Azambuja como principal fiador político do ato. Também associa o encontro ao fortalecimento da organização partidária e à definição dos rumos do partido para 2026.
Esse tipo de convite nunca é apenas convite.
Em política, imagem é mensagem.
E quando um partido coloca determinados nomes na peça principal de uma convenção, está sinalizando quem será apresentado como rosto do projeto.
Por isso, a ausência de Pollon no centro da construção visual e política pesa.
Não significa, juridicamente, que ele esteja fora antes da homologação formal. Mas indica que o espaço dele na majoritária ficou estreito.
Muito estreito.
Reinaldo quer o PL como máquina, não como arena
Desde que assumiu o comando estadual do PL, Reinaldo Azambuja tenta transformar o partido em uma estrutura eleitoral organizada.
O PL informou que a convenção deve anunciar nomes para governador, vice-governador, senador, suplentes de senador, deputado federal e deputado estadual. Também deve definir números de candidatos e a estratégia de alianças.
O partido deve confirmar apoio à reeleição do governador Eduardo Riedel, em aliança com PP e União Brasil, que integram a federação União Progressista. Segundo reportagem do Capital News, esse apoio foi uma das condições impostas por Reinaldo às lideranças nacionais do PL para assumir a presidência da legenda em Mato Grosso do Sul.
Esse é o método Reinaldo: menos grito, mais controle.
Ele não quer uma convenção tomada por disputa interna. Quer entregar uma fotografia de unidade.
O problema é que a disputa por uma das vagas ao Senado abriu uma fissura real entre nomes que falam com o mesmo eleitorado conservador.
O nó Pollon
Marcos Pollon entrou no jogo do Senado com um trunfo forte: o apoio declarado de Bolsonaro.
Em março, Reinaldo reconheceu que o nome de Pollon estava na lista de cotados, ao lado de Gianni Nogueira, Capitão Contar e do próprio ex-governador. Na ocasião, disse que a definição ocorreria nas convenções e que o desempenho em pesquisas seria considerado.
Depois, o PL passou a usar levantamentos internos e pesquisas para definir o segundo nome da chapa. Reinaldo afirmou que duas sondagens, uma da Quaest e outra do Paraná Pesquisas, serviriam de base para a escolha.
A disputa ficou mais dura porque Pollon tinha um ativo simbólico, enquanto Contar tinha recall estadual e boa largada em cenários eleitorais.
Uma pesquisa Real Time Big Data divulgada pela CNN Brasil em maio colocou Reinaldo na liderança em dois cenários. Em um deles, Capitão Contar aparecia com 18%. Em outro, Marcos Pollon aparecia com 21%, atrás de Reinaldo.
Ou seja: Pollon tinha argumento.
Não era um nome decorativo.
Tinha apoio bolsonarista, mandato federal, militância digital e desempenho competitivo em ao menos um cenário testado.
Mesmo assim, o comando nacional do PL passou a sinalizar outro caminho.
Valdemar escolheu Contar
No início de julho, o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, anunciou Capitão Contar como um dos pré-candidatos ao Senado por Mato Grosso do Sul. A outra vaga deve ser de Reinaldo Azambuja. A decisão deixou Pollon fora do desenho principal, mesmo após a indicação atribuída a Bolsonaro.
Depois disso, Contar tratou a disputa interna como “página virada”.
Segundo ele, após reunião com Valdemar, o impasse com Pollon foi superado. Contar afirmou que ainda faltavam definições sobre suplência, mas que já estruturava comitê e planejava percorrer todos os municípios de Mato Grosso do Sul.
Essa fala mostra o clima.
Para Contar, a vaga está resolvida.
Para Pollon, aceitar isso em silêncio significaria reconhecer derrota interna.
E é exatamente aí que a convenção de 1º de agosto ganha peso.
O que pode acontecer com Pollon
Pollon chega à convenção com três caminhos possíveis.
O primeiro é aceitar a exclusão da chapa ao Senado e disputar a reeleição para deputado federal.
Esse seria o caminho mais seguro. Ele preserva mandato, mantém presença em Brasília e evita uma ruptura aberta com Reinaldo, Valdemar e a estrutura nacional do PL. Também permite que Pollon continue falando diretamente com a base bolsonarista sem correr o risco de ficar sem cargo em uma eleição majoritária difícil.
O segundo caminho é negociar espaço interno.
Se não for candidato ao Senado, Pollon pode tentar transformar seu capital político em influência na chapa proporcional, em participação na campanha presidencial de Flávio Bolsonaro ou até em indicação para composições internas. Reinaldo já havia dito que nomes preteridos poderiam buscar outras posições na disputa ou ajudar o partido em outras frentes.
O terceiro caminho é tensionar.
Esse é o mais arriscado.
Pollon pode continuar sustentando publicamente que tem legitimidade para disputar o Senado, usando o apoio de Bolsonaro como argumento. Mas, se fizer isso depois da convenção, corre o risco de parecer isolado dentro do próprio partido.
E isolamento, em eleição, custa caro.
Convenção pode consolidar Reinaldo
Se a convenção homologar Reinaldo e Contar ao Senado, o ex-governador sairá fortalecido.
Ele terá vencido a disputa interna, mantido a aliança com Riedel, organizado a chapa e reduzido a influência de um conflito que ameaçava contaminar a pré-campanha.
Mas o preço será administrar Pollon.
E esse preço não é pequeno.
Pollon tem mandato, discurso, base e conexão com o eleitor bolsonarista mais duro. Deixá-lo fora do Senado pode ser viável. Humilhá-lo politicamente, não.
A saída mais inteligente para o PL seria oferecer a Pollon um papel de destaque na eleição proporcional ou na mobilização da direita no Estado. Algo que preserve sua imagem e mantenha seu eleitorado dentro da campanha.
Sem isso, o partido corre o risco de ganhar a convenção e perder temperatura na base.

O que está em jogo
O PL quer chegar a 2026 como força dominante da direita em Mato Grosso do Sul.
Para isso, precisa fazer três coisas ao mesmo tempo: sustentar Reinaldo, acomodar Contar e não transformar Pollon em ferida aberta.
A convenção de 1º de agosto será o teste dessa operação.
No papel, o evento vai definir candidaturas.
Na prática, vai mostrar quem manda no PL.
Se Reinaldo conseguir sair do encontro com chapa majoritária homologada, apoio a Riedel confirmado, proporcionais organizadas e Pollon sob controle, terá consolidado o partido como principal máquina da direita no Estado.
