O eixo central do relatório enviado à redação se confirma: a janela partidária deslocou o centro de gravidade da política sul-mato-grossense para a direita, fortaleceu o PL e transformou a disputa pelas duas vagas ao Senado no principal campo de tensão de 2026. Mas a checagem das informações mostra também um detalhe importante: o cenário está menos resolvido do que certos bastidores gostariam de vender. Reinaldo Azambuja aparece hoje como nome mais confortável da corrida, enquanto a segunda vaga segue aberta, congestionada e altamente dependente do segundo voto, das decisões internas do PL e da capacidade dos adversários de explorar essa confusão.
O primeiro dado que sustenta essa leitura está na reorganização do poder antes mesmo da campanha de rua. A janela partidária deu ao PL a maior bancada da Assembleia Legislativa, com sete deputados estaduais, depois da filiação de cinco parlamentares. Isso não garante voto automático, mas oferece ao partido algo decisivo numa eleição majoritária: capilaridade, palanque regional e poder de barganha. O relatório acerta quando trata esse movimento como fator estrutural, porque o PL deixou de ser apenas mais uma sigla forte e passou a funcionar como eixo de decisão da centro-direita no Estado.

Nas pesquisas, Azambuja saiu da condição de favorito plausível para a de líder efetivo. No levantamento Novo Ibrape divulgado em 31 de março, ele apareceu com 19,2%, à frente de Capitão Contar, com 17,1%, e de Nelsinho Trad, com 15,2%. Soraya Thronicke surgiu com 8,8%, Vander Loubet com 6,2%, Marcos Pollon com 4,7% e Gianni Nogueira com 2,5%. Havia ainda 14,8% de indecisos e 11,5% entre brancos, nulos ou nenhum. Já no levantamento Correio do Estado/IPR, publicado em 5 de maio, Azambuja avançou para 20,03%, enquanto Contar marcou 16,52% e Nelsinho, 15,69%. O dado político é simples: Azambuja não só lidera, como conseguiu abrir uma vantagem num ambiente em que os outros ainda disputam posição.
Só que a eleição para o Senado em 2026 não será decidida apenas pelo primeiro impulso. O relatório acerta em cheio ao tratar o segundo voto como a zona mais instável do jogo. Em Campo Grande, a pesquisa do Novo Ibrape mostrou Nelsinho com 15,8% no segundo voto, Azambuja com 14,8% e Contar com 13,6%, todos tecnicamente embolados. Mais importante do que isso foi o tamanho do vazio: 17% não souberam responder e 16,3% disseram branco ou nulo. Em outras palavras, mais de um terço do eleitorado ainda não fechou a conta da segunda cadeira. É aí que mora a grande guerra real da disputa.
O fator mais delicado para a direita, portanto, não é falta de nomes. É excesso deles. O PL confirmou quatro pré-candidatos ao Senado em Mato Grosso do Sul: Reinaldo Azambuja, Capitão Contar, Marcos Pollon e Gianni Nogueira. Na prática, porém, a disputa efetiva se concentrou em Azambuja, Contar e Pollon, com Gianni em posição mais lateral. O problema para o partido é que essa abundância pode virar desperdício. O próprio levantamento do IPR ajuda a mostrar isso: quando Contar sai do cenário e é substituído por Pollon, Azambuja sobe para 21,24% e Nelsinho se isola em segundo, com 16,45%, enquanto Pollon fica em 7,84%. Ou seja, a confusão interna do PL pode acabar não fortalecendo a segunda vaga do partido, mas empurrando-a para um adversário externo.
É exatamente nesse ponto que Nelsinho Trad segue vivo. O senador aparece atrás de Azambuja, mas não some do mapa em nenhum cenário relevante. E há uma razão para isso: ele continua sendo o nome mais estruturado fora do PL na disputa da segunda vaga. O MDB de Mato Grosso do Sul já sinalizou apoio à dobradinha Azambuja e Nelsinho, numa escolha que revela pragmatismo puro. O partido leu o cenário e decidiu se aproximar de quem vê como mais competitivo, em vez de investir numa aventura própria de baixa tração. Esse movimento importa porque dá a Nelsinho uma base de apoio institucional que ajuda a compensar a pressão bolsonarista do outro lado.
Do campo petista, o desenho também está relativamente claro. Vander Loubet trabalha para ser o nome do PT ao Senado, enquanto Fábio Trad é tratado como pré-candidato ao governo. O próprio Vander já admite publicamente que a briga interna no PL favorece sua candidatura, porque a direita embolada pode abrir espaço para um nome de centro-esquerda consolidar a segunda vaga. Hoje, porém, ele ainda aparece num segundo bloco, abaixo de Azambuja, Contar e Nelsinho. O espaço existe, mas depende menos de força própria imediata e mais da continuidade do conflito no campo adversário.

Há ainda um ator importante que ajuda a organizar o tabuleiro sem necessariamente entrar nele: Tereza Cristina. Como presidente da federação União Progressista em Mato Grosso do Sul, ela já afirmou que o grupo não terá candidato ao Senado e que o foco está na reeleição de Eduardo Riedel e na montagem das chapas proporcionais. Isso pesa porque esvazia a possibilidade de um nome competitivo saindo do bloco governista via PP-União Brasil e, ao mesmo tempo, preserva o palanque de Riedel como ativo central da disputa. O relatório também toca num ponto relevante ao associar Tereza ao projeto de presidência do Senado. Isso não muda diretamente a eleição em MS, mas ajuda a explicar por que ela hoje joga mais como organizadora de poder do que como postulante a uma nova vaga.
Se há um dado que fecha essa fotografia, ele está na rejeição. No IPR, Soraya Thronicke lidera esse índice com 15,05%, seguida por Capitão Contar com 12,76% e Vander com 12,37%. Nelsinho aparece com 8,04%, enquanto Azambuja registra 5,99%. Isso ajuda a explicar por que o ex-governador hoje parece o nome mais confortável da disputa. Lidera intenção de voto e, ao mesmo tempo, carrega uma das menores resistências entre os principais concorrentes. Em eleição de duas vagas, isso pesa muito, porque não se trata só de ter base. Trata-se de ter margem para crescer sem despertar bloqueio pesado no eleitorado.
A conclusão, hoje, é menos dramática do que alguns gostariam e mais dura do que outros admitem. Azambuja abriu vantagem e entrou no ciclo como o nome mais forte da disputa. Mas a segunda vaga continua em aberto, e aberta de um jeito politicamente perigoso para a própria direita. Se o PL não resolver seu excesso de postulantes, pode entregar a cadeira que parecia natural ao campo bolsonarista para um nome mais estável, mais moderado ou mais organizado fora da sigla. A eleição ainda está longe, mas uma coisa já ficou clara: em Mato Grosso do Sul, a guerra pelo Senado não será decidida só por quem lidera. Será decidida por quem conseguir sobreviver ao caos do segundo voto.

