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Trânsito travado, público exausto e acesso em colapso marcaram a ida ao autódromo. No palco, porém, a banda entregou o que a cidade esperava havia anos e transformou a noite em um acontecimento que ficou maior do que o próprio desastre logístico.

O show do Guns N’ Roses em Campo Grande expôs duas cidades na mesma noite. Do lado de fora, uma capital engasgada no próprio acesso, com congestionamento quilométrico, público preso por horas e uma operação que não conseguiu absorver o tamanho do evento. Do lado de dentro, um espetáculo à altura da espera, da memória afetiva e da dimensão simbólica que a banda ainda carrega.

O resultado foi uma contradição rara e poderosa. A chegada foi caótica. O show, histórico.

Horas antes da apresentação, a BR-262 já dava sinais de colapso. O fluxo travou ainda no fim da tarde, alcançou a Avenida Ministro João Arinos e transformou o trajeto até o Autódromo Orlando Moura em uma travessia exaustiva. Em muitos casos, o que deveria ser deslocamento virou confinamento. Houve fãs que abandonaram carros, ônibus e vans e seguiram a pé para tentar não perder a apresentação. Houve gente que levou horas para percorrer poucos metros. Houve público que entrou no evento já no limite do desgaste.

A operação oficial previa cerca de 35 mil pessoas, restrição temporária para veículos de carga e atuação integrada de forças de trânsito e segurança. No papel, havia planejamento. Na prática, o acesso entrou em colapso. A dimensão do engarrafamento, a limitação da rodovia, o estrangulamento das entradas e a lentidão no fluxo produziram um cenário que rapidamente saiu do incômodo e entrou na categoria de crise.

Para parte do público, o prejuízo foi direto. Houve quem desistisse no caminho. Houve quem perdesse parte da apresentação. Houve quem chegasse ao local já depois do início do show, depois de horas preso em um funil sem alternativa razoável. O episódio abriu questionamentos sobre responsabilidade, estrutura e capacidade real da cidade de receber eventos internacionais dessa magnitude sem transformar o acesso em barreira.

Mas seria intelectualmente preguiçoso resumir a noite ao colapso da chegada.

Porque, quando o Guns subiu ao palco, o ambiente mudou de eixo.

A tensão da estrada deu lugar à catarse. O atraso, que antes irritava, passou a funcionar como válvula de pressão de uma expectativa que já estava no limite. E a banda respondeu com o que o público esperava: presença, repertório, peso simbólico e a sensação de que Campo Grande, enfim, recebia uma noite para entrar no arquivo emocional da cidade.

Esse é o ponto central. A logística falhou. O show, não.

No palco, o Guns entregou o que torna uma grande banda maior do que a própria geração que a consagrou. Entregou músicas que não dependem de moda, imagem que ainda mobiliza multidão e uma experiência de massa que não se resume ao som, mas ao que ele desperta. Para milhares de pessoas, aquela não foi apenas uma apresentação internacional. Foi uma noite de juventude revivida, memória coletiva e pertencimento cultural.

E isso ajuda a explicar por que o evento sobreviveu ao caos sem ser reduzido por ele.

Em muitos shows, uma operação ruim contamina completamente a experiência. Em Campo Grande, o acesso quase conseguiu isso. Mas o palco segurou a noite. O público reclamou da chegada, reclamou da saída, reclamou da estrutura viária, reclamou do tempo perdido. E, ainda assim, quando a banda entrou, a narrativa foi sendo reconfigurada. O sentimento dominante deixou de ser apenas revolta e voltou a ser o que um show desse tamanho deveria produzir: impacto.

A cidade, nesse sentido, viveu uma noite ambígua. Foi capaz de receber um acontecimento histórico, mas não foi capaz de conduzir o público até ele sem colapsar. Conseguiu entrar no circuito dos grandes espetáculos, mas expôs com brutalidade os limites da sua mobilidade, da sua infraestrutura e da coordenação entre operação privada e aparato público.

Essa contradição não diminui o show. Apenas obriga a leitura correta do que aconteceu.

Campo Grande não fracassou no palco. Fracassou no entorno.

A diferença é importante porque impede duas distorções. A primeira seria fingir que nada deu errado. Deu. E muito. O acesso foi um problema sério, concreto, desgastante e, para uma parte do público, impeditivo. A segunda distorção seria tratar a apresentação como se ela tivesse sido engolida pelo caos. Não foi. O Guns entregou uma noite grande demais para ser apagada apenas pela desorganização da chegada.

No fim, o que ficou foi justamente essa imagem dupla. De um lado, horas de estrada, fila, caminhada e exaustão. De outro, um show com força suficiente para reverter o humor de uma multidão e recolocar a experiência em outro patamar.

Trânsito intenso à noite, com carros parados e motociclistas tentando avançar entre os veículos.

É por isso que a melhor síntese da noite talvez seja esta: Campo Grande travou para chegar, mas não travou para sentir o impacto do que aconteceu no palco.

O acesso precisa virar lição. A apresentação, memória.

Porque o que se viu no autódromo não foi só um grande show. Foi uma noite em que a cidade descobriu, ao mesmo tempo, que pode receber um acontecimento dessa grandeza e que ainda não está pronta, do lado de fora, para fazê-lo sem pagar um preço alto demais.

Ainda assim, quando as luzes se acenderam e a banda já tinha deixado o palco, ficou uma certeza que nem o trânsito conseguiu destruir: o Guns passou por Campo Grande e entregou à cidade uma noite histórica.

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