Reportagens publicadas nesta sexta-feira (30) reacenderam o debate sobre a condução do Caso Banco Master no Supremo Tribunal Federal ao detalhar a passagem de participação societária em um resort de luxo no Paraná por estruturas que, em diferentes momentos, se conectaram a familiares do banqueiro Daniel Vorcaro e a parentes do ministro Dias Toffoli. O caso, que já envolve apurações de supostas fraudes bilionárias e a liquidação extrajudicial do banco pelo Banco Central, agora soma uma crise de credibilidade: não é uma denúncia criminal direta contra o ministro, mas um teste público sobre aparência de imparcialidade e transparência institucional.
O Banco Master foi colocado em liquidação extrajudicial em 18 de novembro de 2025, após investigações da Polícia Federal na Operação Compliance Zero, que apura suspeitas de concessão de créditos falsos e estruturas de ativos que teriam inflado liquidez e mascarado riscos. Depoimentos e acareações colhidos no fim de 2025, divulgados nos últimos dias por decisão do relator no STF, reforçaram contradições entre versões de executivos e autoridades de fiscalização sobre como certas carteiras foram apresentadas e negociadas.

Caso Banco Master: o que a PF investiga e por que o banco foi liquidado
No centro do Caso Banco Master está a suspeita de que operações de crédito e negociações de carteiras teriam sido usadas para gerar caixa com base em lastros contestados, com potencial de prejuízo elevado. Em depoimento tornado público, um diretor do Banco Central afirmou à PF que, em determinado momento, a instituição teria praticamente “secado” o caixa — relato que ajudou a sustentar, na esfera administrativa, a decretação de liquidação e a nomeação de liquidante. As investigações trabalham com estimativas que chegam a dezenas de bilhões em transações analisadas e apontam possibilidade de dano bilionário, com números citados publicamente na casa de R$ 17 bilhões.
A apuração também envolve a tentativa de compra de ativos do banco pelo BRB (Banco de Brasília), o que ampliou o alcance político do caso e contribuiu para que parte do inquérito passasse a tramitar no STF. O argumento formal para a permanência na Corte é a menção a autoridade com foro, o que desloca a competência e impõe supervisão judicial em Brasília.
Resort Tayayá e o “fio de reputação” que chegou ao STF
A nova camada do caso não altera, por si só, o mérito das suspeitas financeiras. O que muda é o ambiente: reportagens do Estadão desta sexta-feira (30) e apurações já publicadas por outros veículos descrevem uma linha de transações envolvendo o Tayayá Resort, em Ribeirão Claro (PR), empreendimento associado em diferentes fases a parentes do ministro e a investidores ligados ao universo investigado no Caso Banco Master.
O ponto sensível é a sequência societária. Segundo as reportagens, a empresa Maridt Participações — apontada como pertencente a irmãos do ministro — teria sido sócia do resort e vendido participação em etapas. Em nota divulgada por um dos irmãos, a versão é que a participação foi encerrada em duas operações (uma em 2021 e outra em 2025) e que as informações foram declaradas à Receita Federal.
O que despertou questionamentos foi o fato de que um fundo citado no noticiário como administrado por uma gestora mencionada em relatórios e investigações paralelas teria aportado recursos no empreendimento, e de que, em uma das pontas, aparece um parente por afinidade de Daniel Vorcaro em transação relacionada ao resort — compondo uma ligação financeira indireta entre as famílias. A defesa do banqueiro nega qualquer envolvimento do banco com fundos ilícitos e afirma que a instituição não foi gestora, administradora ou cotista dos fundos citados.
O ministro não é apontado como sócio direto do empreendimento nas reportagens mais recentes, mas a controvérsia se sustenta na pergunta que costuma corroer instituições: quem julga pode ter, ainda que indiretamente, um ambiente de negócios próximo de quem é investigado? É por isso que o episódio do resort virou munição política, jurídica e midiática.
Caso Banco Master: decisões no STF e o efeito dominó da transparência
Nos últimos dias, o relator determinou a retirada de sigilo de depoimentos e de uma acareação do inquérito, atendendo a pedido do Banco Central para ter acesso a declarações prestadas no âmbito da investigação. O movimento foi interpretado, por um lado, como passo para organizar versões e reduzir ruído; por outro, como tentativa de mostrar controle institucional em um caso que transbordou as fronteiras financeiras e entrou no terreno de confiança pública.
Ao mesmo tempo, Toffoli afirmou que só deve avaliar eventual envio do caso à primeira instância depois da conclusão da investigação, o que mantém o tema “no colo” do STF por mais tempo — e amplia o custo reputacional de qualquer notícia colateral, como a do resort.

Linha do tempo do Caso Banco Master
2017–2018 — Daniel Vorcaro assume o controle do banco (então ligado à marca Máxima) e inicia processo de expansão que, nos anos seguintes, torna a instituição mais visível no varejo de renda fixa e em operações estruturadas.
2023–2024 — Período citado em reportagens e documentos técnicos como fase de crescimento acelerado e de operações que depois entrariam no radar de fiscalização e de apuração criminal.
Março–abril de 2025 — BRB anuncia negociações para adquirir participação relevante no Banco Master, com previsão de due diligence e condições de capitalização; o acordo não se concretiza.
Agosto de 2025 — Investigações paralelas sobre gestoras e fundos ganham tração no noticiário e passam a ser conectadas, por analistas, a estruturas financeiras que aparecem no ecossistema do caso.
17–18 de novembro de 2025 — PF deflagra fase da Operação Compliance Zero; no dia 18, o Banco Central decreta a liquidação extrajudicial do Banco Master.
30 de dezembro de 2025 — PF e PGR colhem depoimentos e realizam acareação entre Vorcaro e o ex-presidente do BRB, com versões divergentes sobre a origem e natureza de carteiras negociadas.
14 de janeiro de 2026 — Nova fase da operação amplia diligências e reforça a dimensão política do inquérito.
29–30 de janeiro de 2026 — STF retira sigilo de depoimentos e acareação; reportagens aprofundam conexões envolvendo o resort no Paraná e aumentam a pressão por esclarecimentos sobre a permanência do caso no Supremo.
O que ainda está em aberto — e o que dá para afirmar com segurança
Duas coisas são verdadeiras ao mesmo tempo. A primeira: o Caso Banco Master é, objetivamente, uma investigação de alto impacto, com suspeitas graves, liquidação decretada e contradições relevantes já documentadas em depoimentos. A segunda: a história do resort, por si, não é prova de crime do relator, mas é um fator que exige respostas públicas robustas — porque justiça não vive só de legalidade; vive também de confiança.
Para o leitor, a régua mais honesta é separar camadas: o que está formalmente em investigação (fraudes, créditos, carteiras, fluxos de dinheiro), o que é debate institucional (competência do STF, sigilos, supervisão do BC) e o que é risco reputacional (negócios periféricos que geram dúvida). O desfecho dependerá de prova técnica, rastreamento financeiro e decisões judiciais — não de narrativa.
Redação do Site Notas e Notícias MS


Exelente.