Nikolas Ferreira chega a Brasília neste domingo após uma caminhada de cerca de 240 km desde Paracatu (MG).
“Caminhada pela Liberdade” saiu de Paracatu (MG), cruzou a BR-040 e termina na Praça do Cruzeiro após negociação com autoridades; ato reúne parlamentares, influenciadores e lideranças religiosas e expõe a disputa de narrativa sobre o 8 de Janeiro e a prisão de Bolsonaro
BRASÍLIA — O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) chegou a Brasília neste domingo (25) depois de percorrer cerca de 240 km a pé, em seis dias de marcha pela BR-040, num protesto batizado de “Caminhada pela Liberdade”. O roteiro começou em Paracatu, no Noroeste de Minas, e desemboca no Eixo Monumental com um ato marcado para o meio-dia na Praça do Cruzeiro — destino ajustado a pedido de autoridades do Distrito Federal, que resistiram à ideia inicial de encerrar a manifestação na Esplanada dos Ministérios.
A caminhada é, ao mesmo tempo, um gesto de rua e um cálculo institucional: ela se apresenta como apelo por anistia aos condenados pelo 8 de Janeiro e como pressão política em favor do ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre pena em Brasília após condenação relacionada à tentativa de golpe — tema que segue fraturando o país três anos depois da invasão e depredação das sedes dos Três Poderes.
O que parece performance — e é — também é método. Ao colocar o corpo na estrada, Nikolas aciona um repertório clássico da política simbólica: transformar sacrifício físico em autoridade moral. No caminho, essa autoridade foi “assinada” por fotos, vídeos e adesões de aliados, costurando a marcha em tempo real nas redes, onde o bolsonarismo mantém seu principal motor.
O trajeto: da BR-040 ao Eixo Monumental, com rota negociada
A marcha começou na segunda-feira (19), em Paracatu (MG), e seguiu pela BR-040, rodovia que liga Minas ao Distrito Federal. Na sexta-feira (23), a PRF contabilizava mais de 144 km percorridos e descrevia o grupo como um deslocamento com mais de 100 pessoas pelo acostamento, sob risco viário.
No sábado (24), Nikolas e apoiadores já haviam chegado ao Distrito Federal. De lá para cá, o protesto entrou no modo “capital federal”: ganhou colete à prova de balas no peito do deputado, gradeamento em prédios públicos e, sobretudo, negociação de trajeto para reduzir fricção com o aparato de segurança local.
Segundo o PlatôBR, a organização chegou a planejar o encerramento na Esplanada dos Ministérios, mas aceitou mudar o ponto final para a Praça do Cruzeiro, a cerca de 6 km da Praça dos Três Poderes. Autoridades citaram preocupações de segurança e conflitos de agenda (incluindo uma corrida na Esplanada e a implosão de um prédio abandonado na região central).
Neste domingo, a movimentação começou cedo na Praça do Cruzeiro — com apoiadores chegando por volta das 7h e vendedores oferecendo camisetas e bandeiras (algumas com imagens de Bolsonaro e Nikolas) por valores em torno de R$ 50, segundo apuração do Metrópoles.
Já na dinâmica do deslocamento final, o Poder360 registrou concentração na EPIA (Estrada Parque Indústria e Abastecimento), com bloqueio de via e deslocamento rumo à Praça do Cruzeiro.
O motivo oficial: anistia, crítica ao STF e defesa de Bolsonaro
A “Caminhada pela Liberdade” se organiza em três mensagens, repetidas como mantra:
- Anistia aos condenados pelos atos de 8 de janeiro de 2023;
- Críticas ao STF (com acusações de “abusos” e “arbitrariedades”);
- Defesa de Bolsonaro, cuja condenação e prisão viraram o símbolo máximo dessa narrativa.
O timing não é acidental. Em 8 de janeiro, Lula vetou um projeto aprovado pelo Congresso que reduziria penas relacionadas ao 8 de Janeiro — incluindo a do próprio Bolsonaro, segundo a descrição do texto e a cobertura internacional. O veto, por sua vez, reabriu a briga política sobre “dosimetria”, perdão e responsabilização — e mantém espaço para novas tentativas legislativas, tanto na Câmara quanto no Senado.
É nessa janela que Nikolas tenta colocar o assunto de volta no centro do palco, com um argumento simples (e eficiente): se o Supremo fecha portas, a rua abre janelas — e as redes sociais transformam janelas em holofotes.
Com isso, Nikolas Ferreira chega a Brasília tentando transformar a pauta da anistia em demonstração de força política.
Quem participou: do “núcleo duro” do PL a um ecossistema de influencers e igreja
A marcha virou um ímã de adesões. O núcleo parlamentar listado por veículos como Gazeta do Povo, InfoMoney e Poder360 inclui senadores e deputados do PL e aliados, entre eles:
- Magno Malta (PL-ES) e Marcio Bittar (PL-AC), senadores;
- Gustavo Gayer (PL-GO) e André Fernandes (PL-CE);
- Carlos Jordy (PL-RJ), Zucco (PL-RS), Filipe Barros (PL-PR), Junio Amaral (PL-MG), entre outros;
- Cabo Gilberto Silva (PL-PB), apontado como líder da oposição na Câmara, segundo o relato do InfoMoney;
- E a presença de Carlos Bolsonaro, ex-vereador, registrada por CNN e InfoMoney.
Além do Congresso, a marcha incorporou figuras do “cinturão” bolsonarista nas redes e em ambientes religiosos. O InfoMoney lista nomes como Marcelo Bonifácio (cantor gospel), Guilherme Batista (pastor e influenciador) e influenciadores como Estefane Sampaio e Wess Guimarães, entre outros.
Esse desenho importa: não é só política tradicional (partido, mandato, discurso). É cadeia de influência — um ecossistema em que deputados, youtubers, pastores e perfis gigantes operam como uma única máquina de mobilização.
Segurança, risco viário e a capital em “modo contenção”
Uma marcha pela rodovia, com gente no acostamento e carros de apoio, inevitavelmente vira assunto para as forças de segurança.
A PRF notificou e cobrou medidas de mitigação de risco, mencionando problemas operacionais e de segurança viária e dizendo que não houve comunicação prévia — ponto que a equipe de Nikolas contesta, alegando ter enviado ofícios no próprio dia do início.
Em Brasília, o Palácio do Planalto instalou grades de proteção na véspera do ato, e o Poder360 também registrou que Planalto, Congresso e STF foram cercados no sábado (24).
Havia ainda a intenção — depois abandonada — de aproximar o protesto da área prisional. Segundo o PlatôBR, o ministro Alexandre de Moraes proibiu manifestações e acampamentos nas proximidades do complexo onde Bolsonaro está preso, e a Secretaria de Segurança do DF atuou para evitar que o trajeto “encostasse” nesse ponto.
A “marcha” como linguagem política: quando o corpo vira argumento
Do ponto de vista simbólico, a caminhada entrega uma imagem poderosa: “se eu ando, eu pago um preço; se eu pago um preço, eu mereço ser ouvido”.
É a política do corpo — e ela é antiga. Mas em 2026, ela ganha turbo porque o corpo não caminha sozinho: ele caminha com drones, stories, cortes, posts, reels, transmissões ao vivo. O sacrifício vira conteúdo. E conteúdo vira coordenação.
O gesto também reabilita um método que o bolsonarismo conhece bem: ocupar espaço público com pauta simples e emocional, mesmo quando o centro decisório está, formalmente, em outro lugar (Congresso, STF, Planalto). A caminhada é menos sobre “convencer indecisos” e mais sobre disciplinar a própria tropa, reacender identidade, produzir pertencimento e manter a agenda viva.
A disputa sobre o 8 de Janeiro: “anistia” ou “apagamento”?
A palavra “anistia” é um atalho narrativo: ela reduz um emaranhado jurídico e político a um dilema moral — perdoar ou punir.
Para os organizadores, trata-se de corrigir excessos e denunciar violações de garantias. Para críticos, é tentativa de reescrever o 8 de Janeiro como um episódio “menor” e empurrar a responsabilização para debaixo do tapete, com efeitos diretos sobre a memória institucional do país. A discussão se acirra porque o próprio Bolsonaro cumpre pena após condenação e segue no centro da guerra política, inclusive com disputas judiciais envolvendo seu regime de custódia e alegações de saúde.
O embate não é apenas jurídico: é sobre qual Brasil será contado. Um Brasil onde o Estado reage duro para não repetir 2023 — ou um Brasil onde a reação virou “perseguição”. Marchas como a de Nikolas existem justamente porque essa pergunta segue sem consenso nacional.
O risco de contaminação: quem orbita a marcha e o passado recente
A caminhada também atraiu controvérsia por quem se aproxima dela. A Repórter Brasil registrou a participação de um vereador do Pará citado em investigações ligadas ao atentado frustrado a bomba perto do aeroporto de Brasília, em 2022 — e destacou que, apesar de investigado, ele não foi indiciado por envolvimento no caso.
É um lembrete incômodo: quando a política se organiza por indignação e “nós contra eles”, ela vira ímã não só de apoio, mas de radicalismo residual. E Brasília, traumatizada pelo 8 de Janeiro, reage com alergia institucional: grades, bloqueios, perímetros, vetos de aproximação.
O que observar a partir de agora
O ato de hoje é a fotografia. O filme vem depois.
- Se a mobilização “pega” fora da bolha ou se permanece como demonstração de força interna do bolsonarismo.
- Como o Congresso absorve (ou ignora) a pressão, num cenário em que o veto presidencial e a pauta da anistia seguem como munição política.
- A reação do STF e das forças de segurança, que tendem a tratar grandes concentrações no Eixo Monumental como evento de risco, não como rotina.
- O papel de Nikolas: ele testa um lugar novo — de influenciador-parlamentar para liderança de rua com capacidade de aglutinar nomes e pautas.
A chegada a Brasília, por si só, não aprova anistia, não revoga decisões, não muda penas. Mas muda o ambiente: coloca pressão, produz agenda, obriga o poder a reagir. Em política, isso já é metade do trabalho.
