Brasília — A senadora Soraya Thronicke (Podemos/MS) protagonizou nesta terça-feira (25) uma das falas mais duras do ano sobre participação feminina no Congresso. Durante a inauguração de um espaço no Senado dedicado à trajetória de mulheres importantes na política brasileira, ela afirmou que o país não avançou em equidade de gênero dentro da Casa.
“É triste chegar ao ponto de fazer uma análise fria de que não evoluímos em nada.”
A declaração foi feita no contexto do Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres, evento que costuma gerar discursos conciliadores. Soraya, no entanto, soltou o freio: para ela, o problema não é apenas institucional — é cultural.
Crítica direta: leis não bastam
Ao defender que políticas públicas voltadas às mulheres não são suficientes sozinhas, a parlamentar mandou um recado que incomoda tanto a ala conservadora quanto o campo progressista:
“Se a sociedade não se engajar, nós teremos muita dificuldade. E a sociedade brasileira ainda não entendeu.”
O recado é simples: não adianta criar leis se o país insiste em reproduzir comportamentos que normalizam violência, invisibilização e desigualdade.
O Senado como vitrine do atraso
A fala de Soraya escancara um fato incômodo: o Senado ainda é um espaço majoritariamente masculino, que reage com lentidão à pressão popular por renovação social.
Mesmo com homenagens, exposições e discursos bem intencionados, a presença feminina real no poder permanece restrita. A própria existência de um espaço físico para “celebrar mulheres históricas” revela a distância entre narrativa e prática.
Soraya sabe onde pisa: ela integra uma das Casas mais resistentes a mudanças estruturais, dominada por caciques políticos e práticas herdadas de tempos em que a política era monopolizada por poucos.
Contexto político: a fala não é ingênua
A senadora — que já transitou por campos ideológicos distintos, foi candidata à presidência e protagoniza embates internos em MS — usa o tema de gênero como plataforma de diferenciação estratégica.
Ela acena para um eleitorado que exige renovação, mas também manda um recado ao próprio sistema do qual faz parte: a democracia representativa brasileira está falhando com metade da população.
Num momento em que o Congresso sente a pressão de grupos conservadores e progressistas, Soraya tenta ocupar o espaço de “oposição moral” às estruturas tradicionais”: critica sem romper, pressiona sem incendiar.
O peso da mensagem
A crítica da senadora se encaixa numa leitura mais ampla:
- O país produz leis, mas não muda comportamento.
- A política fala em proteção à mulher, mas naturaliza a violência.
- O Congresso exibe memória — mas não entrega protagonismo.
No fundo, Soraya verbaliza o que muitos não admitem publicamente: a equidade de gênero é uma pauta estacionada no Senado.
Por que isso importa
A fala ocorre no momento em que o Brasil:
- registra índices elevados de feminicídio,
- enfrenta queda de participação feminina em cargos eletivos,
- e normaliza a hostilidade a mulheres que ocupam posições de poder.
É uma crítica que bate onde dói: na incoerência entre o discurso institucional e a realidade nacional.
Conclusão: Soraya não quis aplauso — ela quis impacto
Ao dizer que “não evoluímos em nada”, Soraya Thronicke empurra o Senado para um espelho incômodo.
Não é discurso de celebração. É um tapa político que expõe a fragilidade das ações decorativas, das leis sem base social e da incapacidade crônica do Congresso de proteger quem sustenta metade do país.
