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Ao lado de três amigos de Marcelo, jovem viveu em Campo Grande uma noite de música, abraço e memória que transformou o show em homenagem.

Há noites que passam. E há noites que ficam para sempre.

Para Leonardo Otavio Ventorim Peracchia, o show do Guns N’ Roses em Campo Grande foi uma dessas noites que não cabem apenas na lembrança de um grande evento. Foi mais do que música. Mais do que espetáculo. Mais do que a chance de ver de perto uma banda histórica. Foi uma travessia emocional. Uma noite em que a saudade deixou de ser só dor e ganhou corpo de presença, de amizade e de amor.

Leonardo foi ao show a convite de três amigos de infância de seu pai, Marcelo, que morreu em 2023, aos 50 anos, vítima de câncer. Everton, Realdo e Barbosa não o levaram apenas para ver o Guns. Levaram Leonardo para dentro de uma parte viva da história de Marcelo.

E essa história tinha trilha sonora.

Homem sorridente usando óculos escuros, com barba e cabelo grisalho, em fundo neutro.

Marcelo era muito fã da banda. Com esses mesmos amigos, viveu festas, risadas e muitos momentos marcados por clássicos que voltaram a ecoar naquela noite em Campo Grande. As músicas que para o público eram apenas sucessos de uma carreira lendária, para aquele grupo tinham outro peso. Carregavam juventude, cumplicidade, memória e o nome de alguém que já não estava ali, mas que esteve presente o tempo inteiro.

Eles assistiram ao show do melhor lugar que podiam comprar. E não fizeram disso apenas uma experiência de conforto ou privilégio. Fizeram daquilo um gesto. Um cuidado. Uma forma de dizer a Leonardo, sem precisar transformar tudo em discurso, que o pai dele continuava vivo na lembrança de quem realmente importava.

Durante várias vezes, os quatro se abraçaram. Em vários momentos, reverenciaram o nome de Marcelo. Em vários momentos, a música pareceu fazer aquilo que só a música consegue: suspender por alguns instantes a brutalidade da ausência.

Leonardo classificou a noite como uma das melhores da vida dele. E não é difícil entender por quê.

Há perdas que mudam tudo de lugar. A morte de Marcelo foi uma dessas. Até então, grande parte da rotina de Leonardo passava por ele. As atividades eram feitas com o pai. A presença era constante. O apoio era estrutural. Depois da morte, não foi apenas a saudade que ficou. Ficou também a necessidade de reaprender a vida sem a pessoa que ajudava a sustentá-la todos os dias.

Leonardo é de poucos amigos. Gosta muito de conversar, tem habilidade com informática e carrega um jeito próprio de estar no mundo. Até a morte do pai, o laudo de autismo ainda não havia sido fechado. A partida de Marcelo, portanto, não significou apenas a dor pela perda de um pai amoroso. Significou também a ruptura de uma rotina profundamente atravessada por essa presença.

Talvez por isso a atitude de Everton, Realdo e Barbosa tenha sido tão grande. Eles não preencheram um vazio que ninguém pode preencher. Fizeram algo mais sensível e mais raro. Caminharam ao lado. Transformaram o show em uma ponte entre o que foi vivido e o que ainda pode ser sentido. Deram a Leonardo não só um convite, mas uma experiência carregada de afeto, lealdade e memória.

Marcelo, aliás, parece ter sido esse tipo de homem que deixa marca por onde passa. Engraçado, amigo de todos, querido, leve. Tinha um sonho que diz muito sobre sua alma: trabalhou como Papai Noel no shopping, algo que desejava viver. Gostava de cozinhar. Gostava de estar perto das pessoas. E foi, acima de tudo, um excelente pai.

Essa é talvez a camada mais bonita da história. O show do Guns não serviu apenas para entreter Leonardo. Serviu para devolvê-lo, por algumas horas, a um lugar afetivo onde o pai ainda podia ser tocado pela música, pelos amigos, pela lembrança e pelo amor.

No palco, estavam Axl Rose, Slash e uma banda que atravessou décadas. Na plateia, estava um filho vivendo algo muito maior do que um show. Estava um filho tocando a própria história por outro caminho. Revisitando o pai sem precisar de silêncio, sem precisar de tristeza absoluta, sem precisar fingir que seguir em frente significa esquecer.

Dois homens sorrindo, um sentado e outro em pé ao lado, ambos vestindo camisetas pretas. Ao fundo, uma parede com uma faixa colorida que diz 'HÁJ CERTO'.

Porque não significa.

Às vezes, seguir em frente é exatamente isso: encontrar um jeito bonito de continuar amando quem já partiu. Encontrar uma forma de fazer da memória não um peso morto, mas uma presença viva. E foi isso que aconteceu naquela noite. Entre abraços, clássicos, emoção e reverência, Leonardo não apenas assistiu ao Guns. Ele reviveu uma parte do pai.

Há uma delicadeza muito forte nisso. A de perceber que a amizade verdadeira sobrevive ao tempo, ao luto e à ausência. Everton, Realdo e Barbosa não honraram Marcelo com uma homenagem formal, uma frase pronta ou uma lembrança protocolar. Fizeram algo melhor. Levaram o filho dele para viver uma noite que tinha tudo a ver com quem Marcelo foi.

No fim, talvez o mais bonito dessa história esteja justamente aí. O show era do Guns. Mas, para aquele pequeno grupo, a noite também era de Marcelo.

E, em algum lugar entre um refrão conhecido, um abraço apertado e o nome do pai sendo lembrado com carinho, Leonardo teve aquilo que muita gente passa a vida inteira procurando depois de uma perda: não o fim da saudade, mas um jeito luminoso de conviver com ela.

Algumas noites acabam quando as luzes se apagam. Essa não.

Essa ficou.

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By Notas e Notícias MS | Redação

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